quinta-feira, 12 de julho de 2012

Quando acordo, escrevo.


E se você for só mais um dos meus sonhos de poeta? E se a distância e tudo mais que nos mantém longe um do outro for apenas uma forma de permitir que nós dois possamos imaginar as coisas que não viveremos.

...

Penso em você de manhã. Penso como seria bom acordar um pouco antes de você e velar seu sono acariciando seu cabelo. E como seria bom ver você acordando devagar, abrindo os olhos junto com um sorriso largo que eu logo beijaria. Penso nos primeiros abraços do dia e nas primeiras brincadeiras que faríamos um com o outro. Brincadeiras criadas do nada, apenas para que tivéssemos um mundo só nosso.

E depois: café. Como seria o seu café. Com leite, com açúcar ou puro? O meu, ou melhor, as minhas três canecas cheias de café puro, acompanhariam o seu, fosse ele como fosse. Nos finais de semana seria ainda melhor, sempre com cafés da manhã especiais. Um numa padaria do Leblon, outro num parque da cidade, outro num piquenique em algum lugar que não conhecemos ainda.

Penso nas músicas que você gostaria de ouvir e penso nas que cantaríamos juntos no carro indo para o tal piquenique. Algumas músicas você saberia e cantaria a letra toda e eu ficaria apenas ouvindo só para ver você feliz. A outras, vou pedir para você escutar com atenção, porque de alguma forma seriam as que mudaram minha vida e eu haveria de querer dividir isso com você.

Penso em você nas manhãs das viagens que vamos fazer. Sempre acordando um pouco mais cedo pra que pudéssemos ver o que os nossos olhos não tivessem visto ainda. Sempre amando um ao outro antes mesmo de levantar da cama. Sempre sorrindo com os olhos e sempre confessando o amor que ainda não construímos. E depois tomar rumo sem mapa. Observar pessoas, lugares e paisagens do jeito que as crianças observam as novidades de todos os dias.

Penso em você na hora do almoço. Penso na importância que você daria à mesa cercada de amigos e família e aos pequenos prazeres da mesa. Penso nos sabores que aprenderíamos a descobrir juntos. Penso nos copos das bebidas boas que compartilharíamos. Os bons vinhos, os bons drinks, a minha cerveja e a sua caipirinha.

Penso nas conversas que teríamos deitados juntos numa mesma rede com a brisa do mar nos beijando aos dois depois dos almoços. Sobre os nossos medos falaríamos. Sobre a educação de nossos filhos falaríamos. Sobre os valores que construímos e sobre as experiências que vivemos, falaríamos também. E, entre um beijo e outro beijo, falaríamos de tudo sem que nunca nos faltasse assunto.

Depois você me chamaria para mexer o corpo. Sair, caminhar, subir numa pedra ou qualquer coisa assim e eu tentaria trocar isso por mais um beijo, por mais um carinho. E você me convenceria a lhe dar as mãos e sair pra ver o mundo. E eu sairia sorrindo e feliz só por estar do seu lado.

Um tempo a mais e eu diria que o sol está se pondo. E correríamos para o lugar mais bonito. E sentaríamos juntos com você entre as minhas pernas em um abraço cheio de carinho e amor e assistiríamos o sol se esconder atrás de uma montanha ou mesmo no mar, na linha do horizonte. E juntos, emocionados, aplaudiríamos e agradeceríamos o espetáculo que a natureza nos teria dado.

Penso em você ao anoitecer. Na hora de nos cercarmos novamente dos melhores amigos para compartilhar nossa felicidade. Compartilharíamos os amigos um com o outro. Eu lhe ofereceria minhas melhores companhias e torceria para que vocês se tornassem amigos de verdade. Eu conheceria as pessoas que fizeram diferença na sua vida torcendo para que fizessem o mesmo com a minha. E todos nos sentaríamos para celebrar os encontros em torno de uma mesa ou de uma lareira ou, simplesmente largados, em uma varanda, uma sala, tanto faz.

E nessa hora vou desviar meu olhar e atenção para o seu rosto. As vozes de todos vão diminuir e só conseguirei ouvir você. As imagens de todos vão turvar e só conseguirei ver você. E mesmo sujeito as críticas, levantarei de onde estiver apenas para buscar um beijo seu e para dizer no seu ouvido o quanto gosto de você e o quanto você é importante para mim.

Penso em você na hora de dormir. Mas a hora de dormir vai ter que esperar. Antes dela penso em você na hora do amor. Penso na cumplicidade única, na confissão dos desejos, nas carícias do antes que crescem em toques e em beijos e em palavras cheias de uma malícia boa e mansa. Penso no seu corpo explorando as minhas mãos. Penso no seu gosto que minha boca vai buscar em beijos cheios de vontade de provar você. Penso nos seus pontos mais sensíveis que vou encontrar ao acaso e que vai provocar lindas reações que me aparecerão em contrações no seu rosto, em um fechar de olhos, em uma moleza cheia de entrega. Penso na troca intensa. Penso nas fantasias que criaremos juntos pra nos divertirmos mais, sempre mais. Penso no gozo simultâneo e imenso, repleto de um sentimento único e nosso, só nosso.

Penso em você nos meus sonhos. E quando acordo, escrevo.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Braçada de Flores



- Amigo, eu queria que você mandasse entregar uma braçada de flores do campo, pode ser?
- Uma braçada? Como assim? Um buquê?
- Não. Uma braçada mesmo!
- Mas o que é uma braçada de flores do campo?
- É assim, você vai juntando os buquês no seu braço, um depois do outro. Quando não conseguir mais segurar, aí então você tem uma braçada!

Entendida a dimensão do carinho que o poeta queria demonstrar, ficou combinado que o entregador passaria no seu escritório antes de levar as flores para a menina amada. Ele queria ver a tal braçada e ter certeza de que era do tamanho do seu amor. Queria também enviar um cartão junto com as flores, mesmo achando que as palavras não precisavam ser convidadas para aquele momento.

Rabiscou o que de mais simples ele podia dizer e grampeou o cartão no arranjo. O entregador seguiu seu rumo, orgulhoso de ganhar a vida em troca de sorrisos de mulheres amadas.

- Esse cara é bom – pensou o entregador – Braçada de flores... de onde será que ele tirou isso? E seguiu seu caminho com as flores tomando sol na garupa de sua bicicleta sempre observada por homens e mulheres de todos os tipos, cada um com a sua reação:

- Ai... se fossem para mim. Suspirou uma adolescente.
- Preciso levar flores para ela. Pensou o executivo ausente.
- Adoro flores do campo. Lembrou-se a viúva carente.
- Que vontade de roubar esse buquê. Pensou um monte de gente.

E seguiu até encontrar a rua, o número do prédio e o andar da menina que receberia as flores. Na portaria, o zelador estranhou o tamanho da encomenda, mas não resistiu a um sorriso e até ajudou o entregador a abrir a porta do elevador.

A menina amada foi avisada de que havia uma encomenda na recepção e tomou seu rumo pensando que iria assinar o protocolo de uma nota fiscal ou quem sabe apenas receber um envelope, qualquer coisa assim. Distraída foi direto ao balcão da recepção sem perceber o entregador equilibrista.

- É aquilo ali, apontou a recepcionista.

E o tempo entrou em câmera lenta e ela virou-se quadro-a-quadro para, aos poucos, se dar conta de que o cheiro bom que sentia vinha do maior buquê de flores do campo que ela já havia visto na vida.

Nome confirmado, recibo assinado e gorjeta recusada pelo entregador que ainda estava feliz pelo seu próprio trabalho e por mais um sorriso de amor colhido na vida. Ela voltou à sua mesa atordoada. O escritório inteiro parou para ver seu rosto vermelho de uma vergonha infantil por entre flores coloridas e alegres.

Ela chorou. Sabia que as flores eram do poeta. Sabia que haveria um cartão e sabia da intenção das flores como ninguém mais poderia saber.

Tirou o cartão e segurou sem ler. Alguém lhe trouxe uma lixeira limpa com um tanto de água para acomodar as flores. Ela ainda pensou – uma lixeira? Isso não é lugar para as minhas flores – mas cedeu, porque de outra forma as flores não chegariam vivas até a noite.

O telefone tocava, mas ela não ouvia. Alguém falava seu nome, mas ela não percebia. Tudo o que ela conseguia era olhar as flores e segurar o cartão ainda fechado na mão.

De repente, ela se deu conta que ainda era muito jovem. Percebeu que o caminho que aquelas flores poderiam enfeitar era longo demais. Entendeu que o sonho de um poeta não é brincadeira. E tremeu de medo. E chorou de medo. E deixou o medo crescer em lágrimas que não a deixavam mais ver o colorido das flores. E só então resolveu abrir o cartão que dizia:

“Quero sentir o amor que sinto hoje até o final da minha vida. Quer casar comigo?” e estava assinado pelo poeta.

E as lágrimas se transformaram em um choro forte e desesperado entrecortado por soluços e palavras sem sentido que ela teimava em dizer. Ela queria, mas não podia. Ao menos era assim que ela pensava.

E foi assim que o poeta teve seu primeiro pedido de casamento negado.

As flores ficaram imortais dentro de um caderno antigo e da lembrança dela. O entregador continuou entregando flores e colhendo sorrisos. O florista aprendeu para sempre o tamanho de uma braçada. E o poeta seguiu sua vida. E a menina amada seguiu a dela.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Perdi meu Amor na Balada

Esse vídeo é o máximo!!!! Assistam e se puderem, ajudem esse Daniel a encontrar sua Fernanda!



P.S. Aí você descobre que é uma ação promocional de um site... de qualquer jeito, bacana!

Entre duas frases



“Eu gostaria que meu sorriso clareasse o amanhecer do poeta... todos os dias”

Entre duas frases trocadas por mensagem de texto cabe um mundo de fantasia. Ao poeta é permitido imaginar, sonhar, fantasiar, interpretar e principalmente sentir. 

Na imaginação de um poeta, uma frase solta é uma arma, capaz de disparar até 200 letras por minuto.

Entre duas frases trocadas, entre um poeta e sua musa, cabe tudo.
  
“Eu gostaria que ele fosse a primeira luz do meu dia. Todos os dias.”


Amar se aprende amando



Você conhece alguém que consiga definir o amor? Essa é das tarefas mais difíceis que eu conheço. Porque o que eu entendo por amor não é o que você entende por amor. As coisas que me fazem dizer que estou amando são diferentes das que convencem você da mesma coisa.

Pra mim, amar implica em querer estar junto o tempo todo e em querer dividir todos os momentos com a outra pessoa sem nenhuma mentira e sem nenhum pudor. Quando isso acontece surge um dos mais importantes ingredientes de uma relação de sucesso: a cumplicidade. A deliciosa sensação de que basta um olhar e tudo o que precisava ser dito já foi entendido pela outra pessoa.

O olhar. Ele é responsável por 99,99% das vezes em que eu me apaixonei por alguém. Não é o meu olhar sobre outra pessoa é a troca. É no momento em que os meus olhos encontram os olhos dela que eu consigo sentir melhor. Fico com a sensação de que é possível entrar de fato dentro de outra pessoa pela tal “janela da alma” (cafona isso, né?). Minha receita de amor sempre começa com os olhos nos olhos. É como um gatilho. Um momento muito rápido em que eu percebo que poderia amar aquela pessoa. Mas é assim mesmo que funciona comigo.

Claro que já me apaixonei por pessoas que eu já tinha visto antes, mas isso só pode ter acontecido se eu não tiver me permitido olhar antes. Se não olhei, não me dei conta de que seria possível amá-la. E pode ter sido por qualquer razão. Pode ser que eu estivesse apaixonado por outra pessoa quando a conheci. Pode ser porque a relação era distante ou profissional e não imaginei outra possibilidade, pode ser pelo que for. Mas uma vez que os olhos se encontram e conversam entre si não há mais o que fazer. O amor invade.

Ontem mesmo estava cantarolando, sem amar: Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar... Essa música me acompanhou em quase todos os meus primeiros amores. Ouvia o disco gravado ao vivo no Canecão, com Tom e Miucha cantando lindamente, e me deixava levar pelas doces sensações que os acordes me provocavam. Bom demais os amores da juventude, sem limites, sem razão, eternos e imensos. Bom demais.

Mas o olhar não basta. Ele é só o início, a chave que abre o coração, mas não é tudo. Depois dele vem a troca. O olhar justifica o início de uma boa conversa e isso também é fundamental para saber quais as chances de um amor nascer dali. Quando o papo flui fácil o amor tem mais chances de sair do mundo de Platão para o mundo real (ou nem tão real assim). Um pouco antes de começar uma conversa dessas tento me colocar no lugar da outra pessoa. Já nos primeiros olhares tento ver o que pode haver do lado de dentro dela e o que pode realmente me encantar, me despertar, me modificar, justificar minha entrega. O poetinha dizia que havia uma voz íntima lá dentro no poema “O Haver” quando narra o tudo que resta de um momento de amor.

A troca estabelece os limites e as condições para que ali nasça um grande amor. Não basta falar, berrar, gritar, dizer tudo aquilo que você quer e pensa em dizer. Não adianta nada colocar para fora toda a excitação de menino apaixonado se não houver troca. Cuidado. Se você falar sozinho, se optar por confessar que está nascendo um amor dentro de você e que você não quer e não vai controla-lo de forma alguma, possivelmente afastará a outra pessoa. Porque as pessoas já sofreram antes de conhecer você, porque as pessoas tem medo e se entregam ao medo com muito mais dedicação do que se entregarão a você. Não há nenhuma possibilidade de criar um amor sozinho. Amor é feito aos pares, em duplas, na soma de dois, sempre dois.

A troca é a soma de dois. É como a fé que não se explica, mas se sente (ou não). Para amar, os dois precisam acreditar que é possível amar. Os dois precisam mirar um ponto comum e lá devem depositar tudo o que sentem um pelo outro. Assim nasce algo maior que os une. O amor é a soma dos amores que não existem sozinhos, mas existem na forma de querer e de desejar dentro de você. Sem troca não há amor. Sem soma não há amor.

Mas ele, sua santidade o amor, não é bolo que tenha receita pronta ou que possa ser vendido nas prateleiras dos supermercados da vida. O amor ganha vida própria e, como um filho, precisa ser nutrido todos os dias, precisa de cuidados e precisa de muita atenção. Isso não pode ser difícil nem doloroso. Isso passa pela entrega de ambos e por uma negociação sem fim que vai determinar até onde você está disposto a seguir junto.

Se você mimar demais o amor sem nunca lhe dizer não, vai acabar aturando uma criança chata e cheia de vontades. Não reclame: foi você quem fez isso. Se você for um pai ou uma mãe muito rígido com o amor vai ver que ele se afastará de você e buscará outro pai ou outra mãe mesmo que ele resolva não deixar de existir. Não reclame: foi você quem fez isso. Se você escolher dar ao outro o controle total da criação, ela vai se ressentir da sua ausência e isso é para sempre. Não reclame.

Acho graça das pessoas que precisam definir o que é o amor. Que estabelecem como verdade absoluta as impressões que possuem de tudo o que já sentiram, viram e viveram. Não faltam definições, mas elas não servem de nada porque o meu amor não tem nada a ver com o seu amor a menos que nós dois o tenhamos criado juntos. O amor é indefinível porque são muitos.

É daí e da incompetência de perceber o que é comum e o que não é que surgem as frustrações. Assim como um pai imagina um futuro para o filho diferente do que a mãe imagina também assim também pode acontecer com o amor. E por isso os olhares e as trocas são tão importantes. Casais que não se olham não se amam. Casais sem troca não se sustentam.

E como qualquer pessoa o amor que nasce também cresce, adolesce, amadurece e envelhece. Se ele vai passar por todas as fases com saúde? Isso só depende de quem cuida dele.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Nas Asas da Panair II


Conhecer Roma, a cidade eterna, era um dos maiores sonhos da aeromoça recém-contratada pela Panair. Uma rota concorrida, o mês de julho tinha sido um mês de muito movimento e agosto não seria diferente. Ela estava chegando de uma viagem quando a supervisora deu a notícia: - Você vai para Roma na aeronave que vai levar a delegação do Brasil para os Jogos Olímpicos.

Eu vou para Roma, vou conhecer a Itália! – Pensava ela, mal se contendo de felicidade e nem se importando com os atletas brasileiros que ela atenderia durante o voo. As amigas que fariam o mesmo voo estavam todas muito mais excitadas. Diferente dela, tudo em que pensavam era nos atletas.

No dia da viagem, chegou com antecedência e perfeitamente arrumada para o voo transatlântico. Seria uma viagem cansativa, mas ela não se importava. Iria finalmente conhecer o destino dos seus sonhos. E esses mesmos sonhos incluíam vitrines de lojas que ela havia ouvido falar, visita a praças e parques que povoavam sua imaginação e até mesmo uma inevitável visita ao Vaticano para ver de perto o monumento maior do catolicismo. Não que ela fosse religiosa, mas como ir a Roma e não ver o Papa? Impossível.

No embarque, seu melhor sorriso recebia e convidava os passageiros a entrar. Ia apontando os assentos e driblando os olhares maliciosos dos jovens atletas brasileiros que se espantavam com a sua beleza. Tinha gente do atletismo, natação e das equipes de handebol, basquete e water pólo que eram os esportes olímpicos mais importantes daquele tempo no Brasil e tinha também os militares do hipismo, esses bem mais sérios que os outros meninos.

O trabalho de acomodar pessoas e bagagens ainda continuava quando ela sentiu um olhar insistente chamando sua atenção. Um rapaz bonito e alegre não conseguia desviar os olhos. Ela não retribuía e nem passava recibo. Seguia com seu profissionalismo e dedicação mesmo sabendo que seria uma longa viagem.

Portas em automático. Todos sentados e o Douglas DC-7 ganha velocidade e em seguida os céus rumo a Europa. O rapaz continua buscando uma forma de chegar perto dela e, logo depois do jantar, faz uma visita à gare para, supostamente, tomar um suco de laranja. Em seguida, puxa uma conversa que demoraria horas. Ela sempre tímida, ele sempre simpático, agradável e sedutor. Ele diz que quer vê-la na volta ao Rio de Janeiro, ela dá um telefone errado de propósito. O tempo segue passando e chega a hora dela voltar ao trabalho e dele tentar descansar um pouco, feliz pela conversa e com o telefone no bolso da calça.




A atuação da equipe brasileira em Roma não rendeu mais do que duas medalhas de bronze. Uma no basquete e outra nos 100 metros livres. O rapaz não trouxe uma medalha de volta, mas trouxe o orgulho (que guardaria para sempre) de ter feito parte da história do esporte brasileiro.

De volta no Rio, a primeira providência foi abrir o papel onde ela havia anotado o telefone e discar cuidadosamente um número depois do outro com o coração cheio de esperanças. O toque repetitivo anunciava que o telefone estava ocupado e isso se repetiu durante todo aquele dia, até que ele resolveu pedir ajuda a telefonista. Foi ela quem disse que o número não existia. Foi ela quem ouviu um, raro, palavrão do outro lado da linha antes que o rapaz se desculpasse e desligasse.

Apático por algum tempo, ele logo se lembrou que na conversa ela havia contado que morava em um pequeno hotel desde que chegara do interior do Rio Grande do Sul. Lembrou-se do nome do hotel e resolveu não perder tempo: tomou o rumo da rua e seguiu a pé até o Leblon. O nome no crachá o ajudou a buscar pela moça bonita. A beleza dela a fazia fácil de localizar pela equipe do hotel e ele logo soube que estava no lugar certo, mesmo que ela não estivesse por lá.

Passou a fazer visitas diárias ao hotel buscando informações sobre a moça. Foram dois, três, quatro dias seguidos até que a recepcionista abrisse um sorriso dizendo a ele: - Ela está no quarto. Quer que avise que o senhor está aqui? Seu coração disparou. Ele não queria que avisassem. Pediu apenas que não a deixassem sair até que ele voltasse e saiu correndo em busca de uma floricultura próxima. Lá comprou uma braçada de flores do campo e voltou correndo novamente, com medo de perdê-la uma vez mais.

- Ela ainda está aqui, mas nos pediu um táxi. Deve estar de saída – avisou a recepcionista.
- Obrigado! O táxi é aquele? - Era.

Ele foi até o motorista e tramou uma ideia de improviso. Ela saiu em seguida, apressada. Entrou distraída, como sempre, no automóvel, falando o destino e pedindo urgência. Precisava ver sua irmã que estava na cidade.

Ele deu a partida e seguiu tomando a praia e parando no arpoador.

- Por que paramos?
- Porque tenho flores para você. Porque você é a mulher da minha vida – Disse-lhe, entregando as flores que ela sequer havia notado e virando-se no banco para olhar de frente a linda aeromoça que o reconheceu de imediato.

O susto deu lugar a um sorriso largo. A pressa de visitar a irmã deu lugar a um passeio na orla de Ipanema. O medo de conhecer aquele homem deu lugar ao encanto que os uniu daquele dia para frente e que gerou duas filhas e muitas histórias para celebrar o amor dos contos de fadas.

Nas Asas da Panair I


Filha de alemãs, ela havia nascido em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Em casa, falava apenas a língua germânica. Na rua manteve-se em silêncio durante boa parte da sua infância. Os alemães não eram bem vistos no pós-guerra. A família teve uma história rica de acontecimentos. Um passado que enchia a todos com orgulho do próprio sobrenome, mas isso é para outra hora.

Ela sempre foi uma menina bonita. Muito mais bonita que as meninas da sua idade e mesmo que as outras mulheres da sua família. Seu destino passaria pela beleza. A infância e a adolescência foram vencidas com sacrifício. Sua mãe, lutadora, não deixou faltar nada, mas mantinha rigor na criação de todos. Ela havia vivido os racionamentos dos tempos da guerra na Europa e por isso não admitia desperdícios de qualquer espécie, principalmente à mesa. Educação era o básico, ainda que houvesse a barreira da língua. Todos os filhos tiveram suas oportunidades e todos se agarraram a ela.

Um dia, já no final dos tempos de colégio, a rádio local anunciou que haveria um concurso promovido pela Panair do Brasil. Com o sugestivo nome de Miss Panair o evento reuniria as moças mais bonitas da cidade para uma disputa por um dos prêmios mais cobiçados da época: um emprego de aeromoça na companhia símbolo da aviação brasileira daqueles tempos.

- Você ouviu sobre o concurso? Já se inscreveu? Perguntava a amiga mais próxima. Ela havia ouvido, mas não estava disposta a por sua beleza à prova. Como? Claro que você vai participar, você sempre foi a moça mais bonita da cidade, não pode deixar uma oportunidade dessas passar. E ela ouvia sem se convencer.

- Inscrevi você no concurso! Informou a amiga.
- Como assim? Eu ainda não me decidi.
- Eu decidi por você. Fiquei pensando. Entendo sua ligação com a família e com a sua terra, mas seu lugar não é aqui. Você vai ganhar o mundo, viajar, conhecer pessoas e terras novas. E com isso poderá dar de volta a sua mãe tudo aquilo que ela sempre lhe deu. É seu destino!
- Mas a filha do prefeito também vai participar e com certeza tem mais chances do que eu. Acho que vou me expor por nada. Tenho todas as dúvidas.
- Quem deve temer é ela e você sabe disso. Ela não é bonita como você apenas tem mais dinheiro para as maquiagens e roupas, mas não é isso o que vai decidir o concurso.

E, convencida pela amiga, ela foi contar a novidade em casa. Os irmãos e principalmente a irmã mais próxima vibraram. A mãe não se empolgou. Disse-lhe que queria pensar um pouco mais sobre o assunto e que ela não deveria ficar tão animada.

No dia seguinte, ainda antes do café-da-manhã, mãe e filha passavam o café e conversavam sobre o concurso. - Minha filha, você é realmente uma moça linda, mas sabe muito pouco da vida, dos homens, do mundo fora dos limites da cidade. Eu mesma não tenho as melhores recordações do meu país. Você tem certeza de que quer participar do concurso e quem sabe passar o resto da vida conhecendo o mundo? Tem certeza de que vai dar conta das dificuldades que terá pela frente?

E a filha respondeu dizendo que tudo o que ela conhecia do mundo era o que ouvia no rádio e via nas revistas de moda. Não havia sequer um cinema na pequena cidade. Ela queria ver lugares bonitos, conhecer a Alemanha, a França, a Suíça e vários outros lugares do mundo. – Mamãe... sinto que há muito para ser descoberto lá fora e acredito que, se não tentar, posso passar o resto da minha vida lamentando. Isso eu não quero.

E a mãe cedeu. Permitiu que a filha participasse do concurso que aconteceria em uma semana. Foi até a estante e alcançou, com dificuldade, uma caixa que servia como peso para que os livros não tombassem. De dentro tirou suas economias e entregou a filha recomendando que ela fosse comprar o tecido mais bonito que encontrasse para que ela pudesse fazer seu vestido para a disputa. Um beijo estalado de cumplicidade selou o momento e ela foi acordar a irmã para que fossem juntas à loja de tecidos.

... ...

O clube estava lindo. Todo iluminado e decorado para a grande noite. Toda a cidade estava presente. A família alemã não passou despercebida, muito menos a moça linda com vestido de baile copiado de uma das revistas de época. Logo na entrada a moça foi reconhecida como uma das concorrentes e separada da família que seguiu em frente em busca de seus lugares.

Os minutos se arrastavam. Ela estava sozinha na coxia do palco daquele clube recém-inaugurado. Olhava tudo com a surpresa de quem nunca frequentou os teatros e orquestras das grandes capitais. Junto dela vinte meninas excitadas soltavam pequenos gritos de nervosismo antevendo o desfile. Ela permanecia serena apesar de muito nervosa por dentro.

- Meninas, meninas. Venham aqui. Vou explicar como será o evento. E todas se reuniram em torno da organizadora para ouvir as recomendações.

A música marcaria a entrada de cada uma por ordem alfabética. Elas seriam chamadas e seguiriam acompanhadas pelo mestre de cerimônias. Primeiro até a frente do palco e depois de volta até o lugar onde deveriam permanecer aguardando o momento da entrevista.

E a música tocou e as borboletas voaram nos estômagos de todas aquelas moças do interior. A primeira deixou a coxia com as pernas trêmulas, agarrou-se ao braço do radialista que naquela noite fazia as vezes de apresentador e seguiu. Os aplausos, ainda que pouco entusiasmados, tranquilizaram as demais.

Uma a uma, as moças eram levadas. A música subia e descia o tom. Os nomes eram falados e os aplausos escutados na sequência. O tempo passava arrastado. Ela sabia que seria a última, pois seu nome começava com a letra W. Os aplausos foram rareando e lá pela décima oitava apresentação a fórmula mostrou-se entediante. A décima nona quase não foi aplaudida e quase chorou em público.

Era sua vez. O radialista foi busca-la avisando ao público que a última moça estava para entrar. Um rumor de alívio tomou conta da plateia e da orquestra que já não aguentava mais repetir a mesma melodia.

E no momento em que ela entrou o maestro parou. Com os braços erguidos no ar ele não teve como continuar a reger os instrumentos. E eles pararam também. E um silêncio ensurdecedor tomou conta do teatro do clube.

Os jurados, quase adormecidos, foram acordados com aquele silêncio e olharam para ver o que acontecia. O canhão de luz a iluminava e a boca de cada um dos diretores e convidados da Panair para aquela noite de gala foi se abrindo com espanto. Sua beleza era maior, muito maior do que a de todas as demais concorrentes reunidas.

O pianista resolveu romper o silêncio e, mesmo com a ausência do maestro, começou a dedilhar o piano com a música mais tocada naquele ano: “Oh, Pretty Woman” que Roy Orbison havia recém-lançado e que todos do teatro conheciam bem. A reação foi imediata. Primeiro aplausos efusivos que foram ganhando o ritmo da música enquanto todos do teatro levantavam-se para aplaudir a linda moça aclamada vencedora sem nenhuma necessidade da entrevista. Os jurados não conseguiram se segurar e todos escreveram a nota 10 e levantaram o papel com o voto mostrando que ela era a única vencedora.

...

E esse foi apenas o início da vida da aeromoça que mudou destinos e que conheceu o mundo nas asas da Panair.

Era uma vez...

Era uma vez... um velhinho sentado no banco de um parque. Ninguém do seu lado. 


Uma menina de seus 20 anos resolveu sentar-se e puxar conversa com ele. Coitado, pensou ela, tão sozinho no mundo.

- Boa tarde! o senhor vem sempre aqui?
- Venho minha filha. Descobri há muitos anos que aqui se assiste um lindo por do sol.
- É mesmo? nunca notei. Aliás é a primeira vez que eu venho aqui. Vou encontrar meu namorado daqui a pouco.
- Que bom minha filha. Aqui também é ótimo pra namorar. O cheiro da natureza, o ventinho no rosto, o barulho das crianças brincando, tudo isso é ótimo quando o coração está cheio de amor.
- O senhor tem toda razão...mas...posso lhe perguntar algo?
- Claro minha filha
- O senhor me parece tão cheio de vida, apesar da idade, e ao mesmo tempo acho tão triste vê-lo sozinho em um banco no parque. Por que o senhor está sozinho?

E ele riu alto...tossiu um pouco porque tinha fumado muito durante a vida e explicou: 

- Não estou sozinho. Minha mulher está ali tirando umas fotos. É que eu acho ela tão linda que preferi sentar e ficar vendo ela e a natureza. Uma faz parte da outra e desde que eu a conheci nunca mais estive sozinho nem um minuto, mesmo quando ela não está ao meu lado.

A menina sorriu. O namorado chegou. E os dois velhinhos assistiram juntos a mais um por do sol.

domingo, 8 de julho de 2012

Precisamos Conversar


Você ainda não me conhece, mas precisamos conversar. Já não sou mais um menino e mesmo com tudo o que já passei ainda não estamos juntos e isso me deixa um pouco preocupado.

Tenho procurado por você em vários lugares. Ainda não sei ao certo se você se esconde ou se a vida tem feito piadas e provocado os desencontros propositalmente. O fato é que você nunca está onde acho que está. 

Quem sabe lendo essa carta você pelo menos possa me responder e tirar algumas dúvidas. Coisas simples, mas que podem me ajudar a encontrar você, como por exemplo: você é loura? Morena? Ruiva? Você é alta? Baixa? Qual o seu nome? São bobagens, como falei, porque é isso o que eu não sei sobre você.

O resto eu sei. Ou, pelo menos, acho que sei muito a seu respeito. Sei, por exemplo, que você é inteligente e que usa sua inteligência de forma coerente. Sei que você tem o raro dom de se colocar no lugar dos outros e isso facilita muito as suas relações. Sei que é transparente nas relações que escolhe e isso não quer dizer que você não possa mentir uma vez ou outra, mas que sempre assumirá seus erros. Sei que você paga seu preço por ser quem é e que nem sempre é fácil lidar com o resto do mundo.

Quero também saber mais sobre seus valores de verdade. Você briga pelo justo? Você se emociona com coisas simples? Você preza a amizade? O que você entende por família? Você crê em Deus?

Penso nas viagens que faremos por perto e pra longe. Quero mostrar algumas coisas que eu vi, quero ver o que você viu e quero descobrir com você muito do que nenhum de nós dois ainda conheceu. Quem sabe montamos um quadro de cortiça com um mapa-múndi e atiramos uns dardos para ver nossos destinos. E se nenhum de nós dois gostar da sorte a gente simplesmente joga de novo.

Tenho músicas lindas para mostrar para você. Músicas que me fazem bem e que, acredito, vão fazer o mesmo com você. Músicas que me deixam leve e que talvez nos levem para voar juntos. Tenho pesquisado muitas e vou guardando, criando listas para mostrar quando você chegar.

Imagino as comidinhas que faremos para depois do amor. Pequenos sanduíches, uma massa leve, um peixe, uns ovos em forma de omelete, fritos ou quentes. E os almoços que vão reunir amigos e família em torno da mesa para celebrar a vida. E os jantares românticos iluminados por velas e pela luz que sairá dos nossos olhos enquanto juramos amor eterno.

Prometo que toda vez que você cair ou chorar vou estar ao seu lado. Às vezes falando o que acredito mesmo que não seja o que você quer ouvir. Em outras vezes vou ficar quieto, e deitar sua cabeça no meu colo e acarinhar seus cabelos enquanto, em silêncio, pedirei sua paz, seu equilíbrio. Peço que você faça o mesmo por mim.

Fico imaginando nossas caminhadas a beira mar. Nossos momentos únicos que não esqueceremos nunca. Nossas datas especiais. Nossos desejos em comum e o tanto que faremos juntos para conquista-los.

Mas preciso dizer que você está atrasada. Venha, mas venha logo. E, se por acaso, você já tiver passado pela minha vida e eu não tiver tido a competência de ver ou, se por qualquer razão, você tiver ido antes da hora, volte, mas volte logo.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Amem


Perdidamente apaixonado. Doido de amor. Amando loucamente. 

Você já reparou que não tem uma expressão ao contrário? Ninguém diz que está saudavelmente apaixonado ou são de amor ou amando inteligentemente. O amor já vem com o peso de tirar você do seu prumo. É condição sine qua non.

As pessoas nascem e passam boa parte da infância pensando em fantasias e contos de fada. Tudo sempre começa com “Era uma vez..” e sempre acaba com “...e foram felizes para sempre!”. Depois, entram no colégio, na faculdade, começam a trabalhar e aprendem a necessidade de vestir uma personagem para sobreviver no mundo de “gente grande”. E, quando menos esperam elas viram mais uma “gente grande” e deixam para trás tudo o que antes era o mais importante e que, de repente, sequer faz sentido.

Claro que no meio disso tem a fase em que você descobre (ou tenta descobrir) o amor. Mas se você não se dedicar a isso, não acreditar de verdade que a sua namorada de adolescência é a pessoa mais linda e importante do mundo e que todos os sonhos que vocês tiverem juntos são possíveis de acontecer, você simplesmente não aprende a amar.

Aí as pessoas saem em busca de uma pessoa para dividir a vida. É isso mesmo, as pessoas não buscam mais um amor. Buscam alguém com quem possam dividir a vida. Se está na hora de ter filhos então é o caso de buscar alguém que tenha tido uma educação parecida com a sua e que vá educar os filhos de uma forma parecida, com valores parecidos. Se a ideia é construir um patrimônio então busca-se um companheiro ou companheira focado no lado profissional. E por aí vai. Tudo tem que fazer muito sentido para que você possa se sentir confortável dentro dos valores estabelecidos na sociedade em que você vive.

Então, com a pessoa certa ao lado, resta trabalhar, fazer parte desse ou daquele círculo de amizades, frequentar esse ou aquele lugar e viver do jeito que der e, principalmente, do jeito que convier. Não esqueça de estragar seus filhos também: diga a eles tudo o que você aprendeu para chegar até onde chegou. E diga com orgulho, de peito aberto como se a sua vida fosse a melhor possível.

Fico na posição de expectador disso tudo. Olho e não entendo nada. Acho que os valores estão trocados... os dos outros ou os meus, ainda não descobri. O fato é que não compactuo com esse tipo de vida. Pra mim não faz sentido reduzir a vida a um jogo de lógica. E o que mais ouço é que se as pessoas fossem abertas a se apaixonar sofreriam muito mais. É como se viver relações convenientes não fosse um sacrifício absurdo. É como se não fosse um sofrimento imenso deixar para trás todas as fantasias e os contos de fada e todos os sonhos que eles traziam.

Você é imaturo.

Sei, sei... maduro é você que vive com uma pessoa toda produzida para agradar os outros e para ser aceito nas rodas que interessam. Maduro é você que faz amor sem amar. Maduro é você que não percebe a beleza de um nascer do sol porque tá ocupado lendo o jornal. Maduro é você que nunca roubou um beijo.

São essas as mesmas pessoas que dizem que a pessoa está perdidamente apaixonada. Ora, se está apaixonada não está perdida. É um contrassenso. Onde mais você poderia se encontrar se não na paixão? Aí vem alguém e fala, mas paixão não é amor. Ah não? É o que então? Claro que paixão é amor. Paixão é o inicio do amor. É o estado em que ficamos quando descobrimos que podemos amar aquela pessoa e que é isso o que queremos naquele momento. Paixão só não é amor quando o medo toma conta. Porque esse filho da puta desse tal de medo chega de um jeito bem safado e fala no seu ouvido: - Tá apaixonado? Cuidado! Você vai se machucar. Você vai sofrer... e outras bobagens do gênero. Aí a pessoa, tomada de medo de viver a paixão “de com vontade”, foge e nem percebe que se machucou muito mais apenas porque escolheu não transformar sua paixão em amor.

Ficar doido de amor é bom demais. Amar loucamente é o que dá sentido à vida. As coisas não precisam fazer sentido para ninguém além de você mesmo. Você não deve satisfação a ninguém. Como diz uma amiga querida: explicação se dá pra delegado.

Ontem alguém me disse: você é um eterno apaixonado! E eu só posso responder: - Amém! E talvez acrescentar: amem!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Nasce uma Musa


Ainda outro dia o poeta disse sentir a inspiração chegando em forma de musa. Hoje a musa se fez mulher para ter com ele.


De início o poeta chegou a acreditar que era Érato quem se aproximava. A musa que desperta os desejos, a dos versos eróticos. Uma ninfa coroada de rosas que segura uma lira em uma das mãos e um arco na outra. A primeira vez que a viu surpreendeu-se com a semelhança.

Sempre curioso, o poeta logo buscou um jeito de chegar mais perto. E a musa sorriu. E por causa do sorriso, ele soube que não era Érato mas Taynara que tomava sua forma de mulher, bem ali na sua frente.

Taynara, a dos sentimentos perfeitos, musa da emoção tem por símbolo seu próprio sorriso e sempre foi representada com os cabelos loiros coroados de pureza.

... ... ...

Você precisa ver o sorriso de uma musa para entender.

A Menina de Longe


Sempre que possível, os amigos de colégio se encontravam para um chopp. Uma espécie de viagem no tempo através dos copos. Alguns não perdiam nenhum encontro. Chegavam com a mesma disposição dos tempos da infância e com a mesma alegria que sentiam quando o sinal tocava avisando que era hora do recreio.

Naquele dia o poeta resolveu participar. Antes, porém combinou um chopp com sua melhor amiga. Precisava botar a conversa em dia. Precisava saber como as coisas andavam para ela e precisava contar também sobre o tanto que andava sentindo. Ter uma melhor amiga faz toda a diferença, pensava ele.

Foram cedo para um bar próximo ao lugar do encontro. Tomaram alguns copos e, muito rapidamente, já sabiam que o outro estava bem, apesar dos pesares. Ela ainda sofria pelas escolhas que havia feito. Ele mostrava-se, como sempre, um incompetente emocional. Dizia, decidido: - Não vou cair nas armadilhas do amor tão cedo. Agora só vou me dedicar quando tiver certeza de que encontrei a pessoa certa. Não aguento mais errar – e coisas do gênero.

Estava realmente cansado de tantos desencontros. Seu coração, machucado, não aguentava mais as mudanças bruscas de ritmo. Essa coisa de disparar e, logo em seguida, quase parar era muito pesada para ele. E as suas emoções transbordavam em histórias que contava para o papel, seu confidente maior. A amiga apenas escutava e ria. Perguntava como ele pretendia encontrar a pessoa certa sem tentar. E ele sabia que tentaria. Mas o desabafo servia para aquietar sua mente que, teimosa, cismava em trabalhar quando o coração descansava.

Foram andando para o encontro do colégio.

A mesa grande reunia meninos e meninas crescidos. Em torno dela, as conversas traziam lembranças de outros meninos e de outras meninas. A memória de todos trabalhava. Todos buscavam notícias de um e de outro e entregavam confissões adolescentes de tudo aquilo que não tiveram coragem de dizer nos tempos dos bancos escolares. A camaradagem os unia. Havia no ar uma cumplicidade regada com os anos de convívio e com o chopp daquela noite.

O poeta chegou feliz, identificando cada um e demonstrando a alegria de estar em casa. Logo, uma menina chamou sua atenção. Ele não a reconheceu de imediato. Teve que esperar até que ela sorrisse. E nessa hora ele sorriu também. Ela era linda em todos os aspectos, mas isso ele não podia perceber. Tudo o que o poeta conseguia ver era o brilho nos olhos e o sorriso doce. A falta de intimidade fez com que ele buscasse outros amigos para conversar e matar as saudades da infância. Ele preferiu ficar por perto e, ao final do segundo chopp, respirou fundo e interrompeu a conversa dela com outro amigo.

Os assuntos surgiram fáceis, de forma natural, sem exageros ou grandes explicações. Logo ele ria e ela ria. E, talvez pelo efeito dos chopps, os dois começaram a se mostrar. Ela dizia que era assim e assado e ele dizia que era poeta e sugeria que ela lesse algo dele, se o quisesse conhecer melhor. Ela não passava despercebida para nenhum dos homens (e mulheres) da mesa. Era como voltar aos tempos do colégio. Um burburinho tomava conta. Um menino dizia para o outro que ela estava linda. Uma menina mostrava para a outra a imperfeição de um detalhe tolo qualquer na roupa dela. E eles seguiam alheios, conversando.

Ela contou que morava fora e que aquela era sua última noite no Brasil. Ele quis fuugir. Foi tomado pela covardia infantil dos meninos. Mas não conseguiu. Ficou por perto e resolveu olhar ainda mais fundo naqueles olhos que ele não veria novamente tão cedo. E eles brilhavam.

A Menina de Longe começava a tomar forma de poesia. Ele sabia que não seria difícil imaginar o tanto que poderiam viver juntos.  Incomodada, ela resolveu mostrar a personagem que veste em situações como aquela. Ele riu. Viu a Menina de Longe vestir a fantasia de sedutora, de bem resolvida, de autossuficiente, de mulher segura. E ele apenas riu.

Afastaram-se um pouco e foram ter com outros amigos, sem que um perdesse o outro de vista. Ele, mostrando o orgulho de ser poeta. Ela mostrando habilidade no convívio e no disfarce que escolhera. Ele mantinha o sorriso no rosto. Ela provocava. Ele não percebia seu corpo, apenas seu olhar e, mesmo assim, ela se sentia desnudada com o jeito que ele olhava. Ele esticou a mão, ela voltou para perto e os dois se abraçaram com carinho.

O poeta disse que estava feliz com o que ele conseguia ver. E ele a via por dentro. Ela dizia que muito pouca gente a conhecia de verdade. E os dois seguiam abraçados numa cumplicidade divertida e rara.

... ... ...

O primeiro encontro terminou sem um beijo. Ela foi buscar seu filho em algum lugar e ele a levou até o táxi. Ela disse que voltava. Ele prometeu esperar.




quarta-feira, 4 de julho de 2012

Deixe-me ir, preciso andar...

Cartola e Candeia passeavam pela Lapa. Haviam combinado o encontro uns dias antes quando Candeia disse que tinha um samba novo que precisava mostrar ao amigo.

Cartola andava aborrecido. Sua companheira Deolinda havia falecido recentemente e ele estava desgostoso com os companheiros do Morro da Mangueira. Reclamava sempre que eles estavam fazendo as coisas da maneira errada. Que o samba estava sendo maltratado e que o mundo estava muito mudado. Nessa época, ele ainda não sabia que o mundo é um moinho.

Candeia, já estava de cadeira de rodas depois de ter as pernas paralisadas com os cinco tiros levara de um caminhoneiro com quem havia se envolvido em um acidente. Truculento e impaciente, Candeia havia estourado os pneus do caminhão, descarregando seu revolver com raiva após o acidente. Sem defesa, tornou-se alvo fácil para o caminhoneiro que não deixou barato para o policial de então. E tudo por conta da praga de uma prostituta que ele havia esbofeteado um dia antes – pensava ele.

A deficiência física e a aposentadoria compulsória levaram Candeia a se dedicar apenas ao mundo da música. A dificuldade de sair de Oswaldo Cruz para encontrar os amigos era menor do que a vontade de mostrar as novidades para os bambas que escreviam a história do samba junto com ele.

- Angenor, fiz esse sambinha mas não consigo chegar no ritmo. Leia e veja o que você acha.

Cartola segurou o papel por muito pouco tempo e o devolveu pedindo que o amigo lesse para ele, explicando que na sua voz seria mais fácil imaginar a música, mas na verdade disfarçando o pouco estudo que tivera a chance de ter.

Candeia leu os versos que começavam com: “Deixe-me ir, preciso andar...”. Cartola riu: - Candeia como é que você começa uma música sua dizendo que precisa andar rapaz? Candeia também riu, mesmo não gostando da graça, e respondeu: - Me deixe continuar Angenor, a música não fala de mim, fala de gente perdida, de tempos perdidos. E retomou a letra do início:


Deixe-me ir
Preciso andar Vou por aí a procurar rir pra não chorar


Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...


Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar


Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...


Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...


- Rapaz essa letra é triste demais. Leia de novo, pediu Cartola, prontamente atendido pelo amigo.

Dos olhos fundos do sambista maior escorreu uma lágrima. Cartola sabia que aquela música dizia para ele que era preciso ir embora, que era preciso buscar outras coisas, outras pessoas, outros mundos.

- Tá aí Candeia, você tem razão. Essa música não fala só de você, fala de mim, fala do samba, fala do coração de quem precisa ser livre para viver.
- Também gostei da letra Angenor, mas não encontro o ritmo. Leio e releio mas não sei como fazer dos meus versos uma música. Preciso da sua ajuda.

E Cartola explicou que a melodia já estava feita e que ele não poderia melhorar aquilo que havia nascido do fundo do coração do amigo. Pegou o papel, fingindo que lia, e declamou pausadamente a letra do amigo apenas marcando as frases nos pontos certos. Declamava e imaginava um pandeiro ao fundo mostrando que  era um samba. Declamava e chorava ao mesmo tempo.

- Angenor, grava isso pra mim amigo. Põe isso numa fita para eu mostrar pros homens. Estou precisando levantar algum e se essa música der certo, a vida vai melhorar.
- Posso ficar com esse papel? Perguntou Cartola já guardando a letra no bolso, sabendo que Candeia sempre guardava cópia de suas letras.
- Claro que sim Angenor, mas me prometa que você vai gravar a música;
- Prometo Candeia, mas não esqueça que ela já está pronta.

E os dois se separaram. Cada um pro seu morro. Cada um para a sua escola. Candeia ainda escreveria muitos outros temas. Cartola foi direto para sua casa fazer uma trouxa de roupas e ganhar o mundo. E por quase dez anos, ninguém soube dele.


terça-feira, 3 de julho de 2012

Índios


QuemmederaaomenosumavezterdevoltatodoouroqueentregueiaquemconseguiumeconvencerqueeraprovadeamizadesealguémlevasseemboraatéoqueeunãotinhaQuemmederaaomenosumavezesquecerqueacrediteiqueeraporbrincadeiraquesecortavasempreumpanodechãodelinhonobrepurasedaQuemmederaaomenosumavezexplicaroqueninguémconsegueentenderqueoqueaconteceuaindaestáporvireofuturonãoémaiscomoeraantigamenteQuemmederaaomenosumavezprovarquequemtemmaisdoqueprecisaterquasesempreseconvencequenãotemobastantefalademaispornãoternadaadizerQuemmederaaomenosumavezqueomaissimplesfossevistocomoomaisimportantemasnosderamespelhosevimosummundodoenteQuemmederaaomenosumavezentendercomoumsóDeusaomesmotempoétrêsEssemesmoDeusfoimortoporvocêsseémaldadeentãodeixarumDeustãotristeeuquisoperigoeatésangreisozinhoentendaassimpudetrazervocêdevoltapramimquandodescobriqueésempresóvocêquemeentendedoinícioaofimeésóvocêquetemacurapromeuvíciodeinsistirnessasaudadequeeusintodetudoqueeuaindanãoviQuemmederaaomenosumavezacreditarporuminstanteemtudoqueexisteeacreditarqueomundoéperfeitoequetodasaspessoassãofelizesQuemmederaaomenosumavezfazercomqueomundosaibaqueSeunomeestáemtudoemesmoassimninguémlhedizaomenosobrigadoQuemmederaaomenosumavezcomoamaisbelatribodosmaisbelosíndionãoseratacadoporserinocenteeuquisoperigoeatésangreisozinhoentendaassimpudetrazervocêdevoltapramimquandodescobriqueésempresóvocêquemeentendedoinícioaofimeésóvocêquetemacurapromeuvíciodeinsistirnessasaudadequeeusintodetudoqueeuaindanãovinosderamespelhosevimosummundodoenteTENTEICHORARENÃOCONSEGUI


Pelo menos a lua, a gente vê junto.


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Saudades


Era uma manhã. Havia sol, muito sol. O poeta acordou cedo como acordava todos os dias. Abriu sua janela e logo sentiu o cheiro do mato que ficava perto de sua casa onde os pássaros cantavam alto e celebravam o novo dia. Ele podia sentir a inspiração chegando mansa como sempre chegava.

O poeta sempre imaginava a inspiração na forma de mulher, uma musa que lhe soprava palavras, lhe mostrava cores e lhe trazia cheiros e memórias, fossem elas reais ou não, pouco importava. Ele podia senti-la chegando. Tomando conta dos seus sentimentos. Ele se tornava mais menino perto dela, mais ingênuo, mais puro.

Naquela manhã, ao invés de escrever, o poeta saiu para andar. Ia em busca de memórias que não conseguia transformar em palavras, ao menos, não na ordem em que ele as queria colocar. Sentia que devia apagar algumas delas se não da cabeça, pelo menos do coração. Mas tentava em vão. O poeta ainda sofria por amor.

Ele havia deixado passar o grande amor da sua vida. Perdeu-a por entre tolices, rompantes e desencontros. As verdades de cada um tornaram-se insuportáveis para eles mesmos e assim tomaram caminhos opostos. Ela foi. Ele ficou.

Por quais caminhos ela terá seguido? Estará feliz? Terá hoje um amor maior do que o que tiveram? Que novas fantasias terá ela criado para sobreviver no mundo que tantas vezes a rejeitou do jeito que ela é de verdade? Que mentiras terá ela se obrigado a criar para seguir viva? São tantas perguntas que ele se fazia constantemente sobre ela que, por vezes, esquecia-se de fazer as perguntas sobre ele mesmo. E não havia pouco a se perguntar. Mas as respostas nunca vinham e ele cansava-se do sofrimento imposto – mais pelas suas questões do que pelas dores do coração. Com essas ele quase se acostumara.

Havia naquela manhã uma forma nova de inspiração. Os pássaros cantavam mais alto que o normal. O cheiro estava mais forte. As memórias mais intensas. E com tudo isso, o coração do poeta estava mais apertado do que nunca. Era preciso andar e pensar. E quanto mais ele pensava mais certeza ele tinha de que pensar não o levaria a lugar nenhum.  E quanto mais sentia, mais sofria com a falta daquela que nunca deixou de estar dentro dele.

Suas opções não pareciam fazer sentido: buscar outro amor para esquecer o amor inesquecível? Desistir de amar? Esperar? Nada fazia sentido algum para ele e por isso ele escolheu voltar pra sua casa e escrever.

E se lhe perguntassem naquele dia o que é saudades, ele apenas deixaria uma lágrima escorrer pelo rosto e diria seu nome.

Outros Tempos...

Era uma terça-feira comum. Subiram no bonde, cada um em um canto da cidade. Conferiram as horas nos relógios de bolso com uma mão, enquanto seguravam-se com a outra, trepados no estribo. Estavam na hora e não tinham pressa. Tornaram a guardar seus relógios e permaneceram no estribo mesmo havendo espaço suficiente para sentarem. O prazer do vento no rosto observando a cidade passando tão de perto não tinha preço.

O sino do bonde avisava as paradas que iam se sucedendo. Alguns malabaristas urbanos subiam de um pulo no bonde andando, com movimentos que lembravam o voo de um pássaro. E a viagem seguia rumo ao centro, mais precisamente para a Rua Gonçalves Dias, onde celebrariam a amizade de todos os dias.

Emilio de Menezes foi o primeiro a chegar e a tomar posse da mesa habitual em que nenhum dos frequentadores ousaria sentar e de onde os desavisados eram removidos com a explicação: - Senhores, essa é a mesa de nossos poetas, permita-me acomodá-los em outro lugar.

Não tardou e Olavo chegava manso, pronto para mais uma brincadeira com o velho amigo parnasiano. Pregava-lhe pequenas peças e Emilio sempre caía e tomava um susto antes de começar a rir da ridícula brincadeira entre meninos de idade quase avançada.

- Por onde anda nosso querido Doutor Fontes? Indagou Emilio.
- Não tarda meu caro, não tarda. Temos novidades para lhe contar, mas prefiro esperar o santista ilustre para que contemos juntos.
- Ora, e então por que me atiça a curiosidade?
- Para ver-lhe ansioso querido amigo, apenas para isso.

E riram alto das troças que faziam entre si.

Mudaram de assunto e Emilio logo quis saber sobre a produção de Bilac. O que haveria de novo, recém-saído daquela pena mágica – era o que o torturava. Novos tempos. Nova poesia. Aquele homem tão simples, e sempre tão repleto de surpresas sempre o surpreendia. Quanta habilidade – era o que pensava.

- Recita-me um soneto Olavo, quero ouvir seu coração.
- Com prazer meu caro. Meu coração anda a pulsar forte.

E recitava...

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo 
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, 
Que, para ouvi-las, muita vez desperto 
E abro as janelas, pálido de espanto... 

E conversamos toda a noite, enquanto

A via láctea, como um pálio aberto, 
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, 
Inda as procuro pelo céu deserto. 

Direis agora: "Tresloucado amigo! 

Que conversas com elas? Que sentido 
Tem o que dizem, quando estão contigo?" 


E eu vos direi: "Amai para entendê-las!” 
Pois só quem ama pode ter ouvido 
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

Emilio não conseguia sequer reagir, levado pela voz firme, pausada e definitiva de Olavo, ele entrara na Via Láctea pela porta dos sonhos e da imaginação. Quietou-se, mudo, e nem ouviu quando Olavo lhe perguntou: - E então velho parnasiano o que você achou?

- Olavo – respondeu, descendo do mundo dos sonhos – você é grande.
- Ora querido amigo, vindo de você isso é quase uma ofensa – disse rindo ao amigo de porte avantajado e que pesava mais de cento e cinquenta quilos.

O jovem doutor chegou à Colombo entre as gargalhadas dos companheiros de poesia e logo sorriu, dizendo: - Ora, pois bem, começaram a festa antes de mim. Já não sentem minha falta! – Brincou, exagerado como sempre. E Emilio disse: - Bem-vindo doutor dos exageros. Sem você a festa não estaria jamais completa. E Bilac completou: - Não lhe censure o exagero, é parte fundamental da sua arte. Um poeta sem exageros não é um poeta, é apenas um tolo. E levantou para cumprimentar o amigo mais querido.

- Recitei um dos meus sonetinhos para Emílio e ele se deixou levar, quase flutuou pela Colombo o que seria um enorme risco para o pobre Lebrão.
- Essa sua mania de diminutivos, Bilac, não sei não. Podem acabar desvalorizando seu trabalho
- Ora Dr. Fontes, fique tranquilo. Haverá de chegar o dia nesta terra em que os poetas só falarão em diminutivos. Ainda há de surgir um poetinha, hábil com as palavrinhas e com os sentimentozinhos e o povo vai adorá-lo.
- Profecias, querido amigo?
- Apenas um sonho que tive com um tempo em que os poetas não precisarão nem morrer de fome como eu, nem se prostituir como outros para exercer sua arte.
- Deus lhe ouça, Deus lhe ouça.

Emilio interrompe os amigos, ansioso como sempre, e pede: - Contem-me logo a novidade. Não me torturem mais.

- Estamos pensando em montar uma agência de publicidade.
- O que? Agência? Expliquem-me melhor.
- Vamos juntos montar uma agência para que possamos criar pequenos versos que ajudem os comerciantes a divulgar seus estabelecimentos. Bastos Tigre também está conosco.
- Ora, mas e o tal discurso contra a prostituição literária?
- É esse meu dilema – disse Bilac - Não suporto mais morrer de fome ter que vender o almoço para comprar o jantar, mas acho que posso fazer a união da publicidade com a arte, desde que conte com o apoio de amigos como você. Por isso queria lhe contar e ouvir suas impressões.
- Acho perfeito, amigos queridos. Não suporto mais os maus-tratos que a língua mãe vem sofrendo, sem falar nos trocadilhos infernais que sujam os cartazes dos bondes com sandices. Acho que vocês, juntos, podem salvar o Brasil da invasão dos imbecis. Avante!

Ergueram um brinde a Agência Americana, nome da agência que seria fundada ainda naquele ano de 1911 e, revelaram em segredo com já possuíam o primeiro cliente e já haviam criado o reclame para o Rhum Creosotado:

Veja, ilustre passageiro 
Que belo tipo faceiro 
Que o senhor tem ao seu lado.
E no entanto, acredite,
Quase morreu de bronquite.
Salvou-o o Rhum Creosotado.

Emilio ouviu e riu. Isso deve ser coisa do Tigre – exclamou. E os amigos preferiram não contar de quem era a autoria e seguiram rindo, brincando e esperando a companhia certa dos demais companheiros de poesia e de Colombo que não tardariam.