sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Gêmeas


As duas irmãs nasceram no mesmo dia, da mesma mãe, do mesmo pai. Eram idênticas na aparência, na beleza, na educação. Eram duas, mas eram uma. Unidas na forma de ver o mundo, escolheram crescer juntas e compartilhar as dúvidas, as experiências, os sonhos e os pesadelos. Acreditavam que se permanecessem unidas poderiam aprender mais rápido sobre todas as coisas da vida, fossem elas boas ou ruins.

Fizeram, ainda meninas, um pacto. Não se encontrariam na noite e nem nos finais de semana. Onde uma estivesse a outra não apareceria. O fato de serem gêmeas e idênticas seria guardado para poucos. A condição era que uma contasse à outra tudo o que tivesse acontecido. E enquanto moraram juntas as noites só acabavam depois de uma longa sessão de confissões. Eram irmãs de verdade. Espelhavam uma na outra boa parte da vida que construíam.

O tempo passou...

Uma casou-se, teve filho, separou-se, casou-se novamente, teve filha, separou-se e seguiu. A outra viajou para longe, foi viver a vida em outro país. Conheceu e amou pessoas diferentes, experimentou, casou, teve filhos, separou-se, chorou, riu, bebeu, amou. E mesmo com o tempo e com a distância as duas permaneceram unidas. Falavam-se todos os dias pela internet e mantinham o hábito de contar tudo o que acontecera no dia, uma para a outra.

O poeta nunca soube disso.

Ele conheceu a menina com charme em um bar. Olhou com ternura e com a curiosidade que lhe fez poeta, mas ela não estava só. Havia um namorado. Resignado, o poeta não fez das suas. Evitou agir como poeta, negou-se o prazer de desenhar em atos o sentimento que lhe tomou e não se entregou para a menina com charme que lhe pareceu tão longe. Tornaram-se conhecidos e esbarravam-se vez por outra nas ruas, padarias e bares da cidade.

Um dia o poeta e a menina se encontraram no mundo virtual. Ela havia lido um pouco do tanto que ele escreve. Conversaram. Sorriram. Trocaram palavras inocentes e gostosas como jujuba. Mas ele não se permitiu acreditar e, em uma brincadeira no bate-papo perguntou se ela não teria por acaso uma irmã gêmea. Que fosse idêntica. Que fosse solteira. Ela riu e disfarçou a verdade. Ele riu e disfarçou a mentira.

As conversas continuaram. Ele não resistia à vontade de conhecê-la melhor e de entender a vida que a fez do jeito que a fez. Os dois amavam as músicas e se divertiam trocando letras e melodias. Mandavam recados velados e sorriam.

Pouco tempo passou...

- Estou voltando para o Brasil! Anunciou a irmã que morava longe.
- Quando? Perguntou a irmã de perto.

E foram horas online. A chegada seria breve. A mudança estava pronta. A saudade era imensa. O mundo mudara muito e ficar no Brasil parecia o melhor a fazer. As irmãs vibravam e comemoravam a nova fase de vida que começaria. A conversa não tinha fim, não tinha meio, não tinha nada. E na falta de rumo das palavras ela confessou:

- Preciso te apresentar uma pessoa.
- Não!!! Não quero conhecer ninguém agora. Estou cansada de me frustrar com os jogos vazios dos caras que só querem me exibir. Não tenho mais paciência para lidar com a insegurança, medo e infantilidade dos homens de hoje.
- Mas esse é diferente!
- Todos são diferentes. Acho que é isso o que me cansa. Se eu pudesse ter um pouco de cada um em um homem só, acho que seria mais feliz.
- Vem logo para o Brasil... enquanto isso vou mandar para você umas histórias, crônicas de todo dia... e vamos conversando com calma.

Ainda faltava um mês para ela chegar e todos os dias a irmã mandava um texto novo, uma foto, um comentário. A irmã de longe recebia incrédula. No início nem se interessava. Depois foi tomada pela curiosidade e começou a ler.

Dois dias antes da viagem a irmã de longe se viu curiosa com aquela situação e numa nova conversa disse:

- Esse cara parece mesmo diferente. Tenho gostado de ler o que ele escreve. Acho que ele é sincero demais, mas é envolvente. Escreve bem. Descreve bem. Acho que vou mesmo querer conhecê-lo quando chegar.
- Precisamos conversar sobre isso...
- Desistiu de me apresentar?
- Não. Sim. Quer dizer.... Acho que você não entendeu.
- O que?
- Saio com uma pessoa desde junho do ano passado, você sabe. Ele é ótimo, um cara bacana, carinhoso, companheiro, cúmplice, etc... mas esse cara mexeu comigo...

E a irmã riu e lembrou-se de todas as histórias de vida que as duas tiveram juntas. Ao invés de procurar problemas, rapidamente ofereceu a solução:

- Então me apresenta seu namorado e vá ser feliz!

E o poeta nunca soube dessa história.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Motivo pra Sonhar


Um sábado de sol. Ele como sempre lamentando não ter ido para Búzios, a cidade que ele tanto gostava e que era sinônimo de praia para quem não tinha paciência para os vendedores de mate e sanduíches naturais. Praia no Rio era uma tortura para ele a menos que fosse para sentar no quiosque do português, no calçadão em frente à Rua João Lira e curtir uns bons salgadinhos e umas lindas caipirinhas. Mas esse não era o programa daquele dia.

Tomou, junto com sua melhor amiga o rumo de um de seus botequins favoritos. Logo estavam sentados na parte de fora do Chico & Alaíde. Lá, o antigo garçom do Bracarense o reconhecia sempre e lhe dava atenção e agrados que faziam seu lado leonino vibrar. Nada melhor do que não precisar pedir mais pressão no chopp. Nada melhor do que contar com garçons atentos e dedicados. Nada melhor... nem a praia.

Conversavam sobre as amenidades de sempre. As questões dela com o namoro que nunca dava certo e as lembranças dele do amor que morreu sem razão de ser. Falavam e bebiam e sorriam. De vez em quando, alguma figura conhecida do Leblon parava para falar com os dois. Tomava um chopp, contava uma história, comia um petisco e seguia seu caminho de sábado. Uma tarde sentado naquela varanda (se é que se pode chamar aquilo de varanda) tinha o poder de regenerar seu cansaço pelo trabalho de toda a semana.

O bar enchendo de gente. O volume das vozes aumentando. E o humor dos garçons começando a mudar. Os dois observavam tudo e riam dos detalhes das mesas próximas. Ele conseguia ouvir a conversa de, pelo menos, três mesas simultaneamente, ela focava uma situação e seguia como se fosse novela. E os dois riam de cada lance da vida, deliciosamente mundana, que os cercava.

Foi quando ele percebeu um casal em busca de uma mesa. Ele primeiro viu a Menina com Charme e depois é que se deu conta de que ela não estava sozinha. Uma fração de segundos. O suficiente para ele imaginar como seria a história entre ele e aquela Menina.

...

Ela chegou sozinha no bar. Ele, sentado com uma amiga, viu que ela não conseguiria um lugar e ofereceu uma cadeira para que se sentasse com eles. Ela aceitou, sorrindo, charmosa. Sentou-se, pediu um chopp e começou a ouvir e a falar como se fossem velhos conhecidos. Coisa de carioca, diriam os paulistas.

A amiga, boa conhecedora dos brilhos dos olhos do amigo, logo inventou uma desculpa para sair de cena e os deixou sozinhos no meio do bar lotado. Ela contou sobre sua vida, sobre seus filhos, sobre seu trabalho. E ele ouviu. A cada novo chopp ela ficava mais a vontade. A companhia facilitava. Ele falava das suas coisas, do seu jeito e a conversa seguia fácil e gostosa.

- Você é sincero demais...
- Sou. Aliás... você não teria uma irmã gêmea para me apresentar não, né?

E riram um riso fácil. A velocidade do chopp havia diminuído. Os dois queriam continuar sóbrios e atentos um ao outro. Ela foi ao toillete. Ele esperou. Na sua volta ele resolveu ir também. E, de frente para o espelho, enquanto lavava as mãos, viu que seus olhos ganhavam um colorido novo. Sempre que ele estava feliz demais ou bravo demais seus olhos ganhavam tons de verde. Ele sorriu. Não estava nem ficaria bravo naquele dia.

Voltando para a mesa ele a viu sentada de costas para o seu caminho e não resistiu a um abraço carinhoso. Ela encolheu-se, mas não se furtou ao carinho e segurou seus braços com as duas mãos respirando fundo. Ele disse no ouvido dela:

- Gosto de ter você por perto.

E com uma das mãos ele acariciou seus cabelos. E com carinho beijou-lhe o rosto enquanto ela fechava os olhos. E com ternura voltaram ao abraço que marcava o início de uma história de amor.

...

Quando se deu conta de que estava imaginando e não vivendo aquele romance, ofereceu assento ao casal e logo começaram uma deliciosa amizade de botequim. Coisa de carioca, diriam os paulistas novamente. Os meninos tinham algumas coisas em comum. Mas ele não conseguia parar de olhar para ela, dividido com a presença de um cara legal a seu lado que o impedia até mesmo de imaginar qualquer coisa. Logo ela disse que precisava ir embora. Tinha que pegar um dos filhos em algum lugar próximo. Deixou o namorado na mesa, avisando que logo voltaria para buscá-lo, despediu-se e foi.

Alguns chopps a mais e ele também se foi.

A melhor amiga notou seu interesse, mas preferiu não comentar. Ele escolheu ir embora. Disse que queria dormir um pouco. A amiga ainda protestou:

- Mas já? Jura que você quer dormir agora? Por quê?

Ele pensou e respondeu:

- Porque agora tenho um motivo pra sonhar.


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

É de noite


Os desejos vão consumindo o lugar que deveria estar repleto de amor. Amor que não surge nunca na hora esperada. Amor que teima em se esconder pelas ruas em que passo sem se fazer notar. Não o vejo, não o reconheço e por isso sigo cheio de desejos, de fantasias, de quereres.

A vida teima em seguir um ritmo próprio. É uma tremenda falta de respeito. Converso com ela e tento explicar que não acredito no amanhã, que vivo apenas o hoje. Ela, calada, responde que isso é problema meu e manda avisar que só me trará o amor quando achar que eu estou pronto para vivê-lo. É mesmo absurda essa situação.

Indignado, converso com o menino poeta e sonhador que mora dentro de mim. Tento explicar que ele precisa ser paciente, que em breve a vida há de mostrar a pessoa certa e dou uma enrolada para ver se ele se acalma. Mas meninos tem pressa e o meu não é diferente. Ele quer logo conhecer o grande amor. Me diz que não há tempo a perder. Que cada dia sem ela é mais um dia vazio e diz que nenhum dia não pode passar em branco.

- Calma! Ela disse que na hora certa vai mandar a pessoa com quem vamos viver os melhores dias das nossas vidas. A vida sabe o que faz!

- Sabe? Sabe nada! A vida é uma tremenda gozadora. Vai nos apresentando pessoas disfarçadas de grandes amores e a gente vai acreditando que dessa vez é “a” pessoa, mas qual nada...nunca é. A vida brinca com meus sentimentos como se eu não os tivesse.

- Calma. Deixe o tempo correr. Seja paciente!

- Você não pode estar falando sério. Você sabe muito bem como a gente fica quando não tem ninguém ocupando o coração. Você conhece a agonia de não amar. Sabe como é ruim deitar-se de noite na cama sem pensar em ninguém. Você chega mesmo a lembrar de antigos amores, que não devem mais sequer lembrar seu nome, apenas para ter em quem pensar. Calma? Pra cima de mim???

E os conflitos internos vão se repetindo ante a falta do grande amor. O menino poeta não gosta de ficar esperando. Ele tem imenso medo de não reconhecer seu grande amor e de deixá-lo passar sem um beijo, sem uma loucura, sem lhe dar flores ou escrever tolos versos de amor. O menino poeta tem medo, mas segue sonhando.

...

É de noite. É sempre noite quando não se ama. O amor aparece como o sol que se levanta atrás das montanhas e que clareia devagar o horizonte revelando cores, formas e infinitas possibilidades que a noite esconde.

...

Os desejos aproveitam. Não cessam de aparecer. Surgem por todos os lados e confundem. Um sorriso basta para que eles apareçam. Um olhar é o suficiente para que eles ceguem. Um cheiro bom inebria e engana. Não foram poucas as vezes em que confundi desejos com amores. Não foram poucas as vezes em que tive que escutar amigos me dizendo que não posso ser como sou, que não posso me entregar sem ter certeza de que é mesmo amor. E não foram, nem serão, poucas as vezes em que teimei e que continuarei teimando na busca do grande amor.

Proibir a mim mesmo de viver e de tentar, não faz sentido. Diminuir o desejo, fingindo que não os sinto é pequeno, me faz pequeno. Penso que a vida não me daria tantos desejos se não tivesse escondido em um deles o grande amor. Só me resta buscá-lo.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Uma Grande Mentira de Amor


Eles haviam reatado havia pouco mais de duas semanas. Ela estava diferente. Mais irritada que o normal. Menos carinhosa que o normal. Ele não queria briga e achou melhor deixar o tempo correr. Naquele dia, ele tinha chegado de São Paulo e depois de muitos beijos, carinhos e abraços ela voltou a fechar o tempo e ele não resistiu.

- O que está havendo?

Ela ensaiou não falar nada. Respondeu fugindo da pergunta. Ele pressionou um pouco mais. Ela acabou dizendo que estava tensa: sua menstruação estava atrasada e era isso o que estava tirando seu bom humor. Ele ouviu e perguntou:

- Você acha que pode estar grávida?

E ela então contou uma longa história. Sim, ela achava que podia estar grávida e aquilo era uma questão complicada. Há algum tempo atrás ela havia engravidado do namorado de dois ou três anos e ele disse que não encararia a um filho com ela. Ela optou pelo aborto e vivia arrependida da escolha. O atraso na menstruação ganhava por isso uma dimensão imensa, uma agonia intensa e afetava tudo em sua vida.

Ele ouviu sem fazer juízo de valor. Disse no final que ele pensava diferente e que se ela estivesse mesmo grávida isso seria para ele motivo da maior alegria do mundo. Disse que ser pai do filho dela não poderia ser mais maravilhoso. Falou sobre sua filha amada, seu nascimento e como era bom ser pai. Disse o quanto sua filha era importante para que ele fosse quem ele é. Falou que mesmo que o momento parecesse errado, uma gravidez tinha o poder de transformar tudo. E continuou falando o quanto era desejado aquele filho, o quanto seria importante para os dois.

E ela apenas chorava.

Ele a consolava e dizia que seria bom se ela fizesse um teste. Ela disse que faria na semana seguinte. E o fim de semana seguiu seu rumo. Ele, sem querer fazer grandes planos. Ela, estranha e fechada. Ele teria que voltar para São Paulo no domingo. Ela ficou de procurar um médico e disse que lhe daria notícias.

Quando ele manobrou o carro e tomou o rumo da estrada ela despencou em um choro convulsivo. Não se perdoava por ter mentido daquela maneira para ele, mas não tinha opção. No mês em que estiveram separados, antes da volta recente, ela havia conhecido outro homem. Vaidosa e sedutora deixou-se levar pelos elogios. O que começou como uma brincadeira acabou na cama dela e juntos tiveram uma noite de sexo, ainda que sem amor. Não foi muito além aquela aventura. Sua grande questão era não saber de quem seria o filho que esperava.

No fundo ela sabia que estava grávida, mas não sabia o que fazer sobre isso. As opções eram todas absurdas. Dizer que esperava um filho dele sem saber se era mesmo dele, arriscar ter um filho para descobrir depois quem era o pai de verdade. Ao mesmo tempo havia também a dor de saber que ela não teria outra chance. Ou ia em frente com a gravidez e arriscava ou desistia de todos os seus sonhos de ser mãe para não por em risco o grande amor.

Ele nem desconfiava e não ficou feliz com o telefonema dela dizendo que a menstruação havia descido. Ela era a mulher da sua vida. Um filho com ela era a certeza de que estariam juntos para sempre, de uma forma ou de outra. Ele lamentou por telefone ela fez de conta que também lamentava e desligaram.

Uma amiga buzinava na porta da sua casa e ela já saiu pronta, com bolsa e tudo, rumo à clínica conhecida do mesmo médico que já havia tirado uma vida, morta, de dentro dela. Não trocaram nenhuma palavra. Seguiu rumo ao destino que escolheu como se estivesse sozinha. O procedimento foi rápido. Não houve dor nem mal estar. Pelo menos físicos.

A mesma amiga a levou de volta para casa. Preparou-lhe uma sopa. Colocou-a na cama e recomendou calma e descanso antes de partir. Não houve nem calma nem descanso. Apenas choro e tristeza. Naquela noite ela não atendeu os telefonemas dele. Naquela noite ela não ligou a televisão. Lembrou-se dos sonhos, da criança imaginada, dos nomes que já havia escolhido, dos momentos que havia imaginado e chorou as lágrimas que havia guardado para chorar a felicidade de ser mãe.

Dormiu exausta de tanto chorar na mesma hora em que o sol começava a surgir na sua janela. Não sem antes prometer a si mesma que jamais contaria o que tinha feito a ele.

...   ...   ...

Acordou diferente em todos os dias que se seguiram àquele dia. Não era mais a mesma menina de antes. Havia pago um preço alto demais.

Ele veio novamente naquele final de semana, mas ela estava diferente. Ele não adivinhou. Ela brigava por qualquer motivo. Ele só queria estar ali. Ela só queria sumir. As brigas recomeçaram sem que ele entendesse os motivos. Ela se ressentia de tudo, estava sensível. Surgiram cobranças e mais cobranças. Qualquer desatenção era imediatamente convertida em mágoa.

Ele resolveu alegrá-la. Comprou ingressos para o show de seu cantor preferido e a levou tentando lhe fazer sorrir todo o tempo. Ele a amou mais do que amou qualquer mulher, mas ela não parecia perceber. No meio do show ela cismou que ele estava olhando para outra mulher. Reclamou. Ele resolveu sair de perto e fumar um cigarro. Quando o show acabou, houve uma cena dela dizendo que iria embora sozinha. Depois, atendeu os apelos dele e entraram juntos no carro onde a briga recomeçou. Ele não queria mais brigar. Ela berrava alto. Ele não se conteve e berrou também. Ela perdeu a razão e disse coisas que nunca deviam ser ditas a ninguém. Ele calou, profundamente magoado. Ela percebeu o que havia feito e em um gesto contínuo bateu na trava do cinto de segurança e abriu a porta do carro que seguia a mais de 100 km/h decidida a pular. Ele a puxou. Ela mordeu sua mão com toda a força enquanto ele encostava o carro.

Eles viveram juntos o pior momento de suas vidas.

Depois, choro, conversas, pedidos de perdão, arrependimentos e tudo o mais que pudesse ser dito, pedido, implorado. Os dois continuaram juntos por mais um tempo. Pouco tempo, suficiente apenas para que a frustração dela fosse ganhando espaço necessário para tornar a relação impossível. Ela não podia confessar e nem ele, tão pouco, adivinhar.

E ele nunca se conformou com o fim do grande amor. Nem nunca soube da grande mentira de amor.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Quanto vale um amor?


Qual é o valor de um amor? Sim, a pergunta é essa mesma. Quanto vale um amor? Será que vale todas as horas de sono que já perdi? Será que vale todos os sonhos que abandonei? Será que um amor vale os outros amores que não vivi? Será que faz sentido?

De vez em quando fico pequeno. Volto a ser uma criança que não entende os nãos que ganha na vida. Deve haver uma razão, mas eu não consigo entender. Fico triste de verdade. O coração bate doendo. As lembranças que jurei ter apagado voltam vivas e as lágrimas escorrem mortas.

Tentei curar essa espécie de maldição de várias maneiras diferentes. Tentei amar outras pessoas, mas não consegui. Acreditei, algumas vezes, que enfim estava em um caminho bom e que ele me levaria a um caminho melhor, mas não consegui nem dar os passos que precisava nas horas da escolha. Não me entreguei de verdade a mais ninguém. Não tive coragem. Não amei.

Tentei também ir ainda mais fundo no poço dessa tristeza imensa. Bati o pé no fundo, tentei tomar impulso. Nada adiantou. Meu pé ficou preso. Não houve impulso. A tristeza que, racionalmente, escolhi matar pra nunca mais sentir, resolveu permanecer doendo no meu peito. Me consultei com gente mais inteligente do que eu e descobri que a inteligência não foi convidada a falar sobre a emoção. Conversei e confessei com amigos. Mas não imaginava uma penitência tão grande. Continuo pagando.

Visitei meus valores. Lembrei de tudo o que sempre quis para a minha vida. Lembrei da casa que desenhava na infância enquanto me convencia de que era ali que eu iria morar. Lembrei dos rabiscos adolescentes feitos com grafite e que sempre repetiam o mesmo rosto e que serviam para me mostrar apenas o olhar que queria ver todos os dias de manhã, quando chegasse a hora. Lembrei da importância da família. E também não esqueci de lembrar do tanto que sempre desejei uma companheira, cúmplice dos meus erros e acertos. Pensei nos poetas que li, nos romances que devorei, nas histórias que ouvi... tudo mentira?

De que adianta sofrer por quem nem lembra mais de você? Pra que isso? Pra sentir uma pena insuportável de mim mesmo? Detesto pena, detesto auto piedade, detesto me fazer de coitado. Detesto a vida em baixo astral.

Concluí, no meio disso tudo, que criei pra mim uma personagem que nunca existiu. Assim pude entender que amei quem nunca existiu. Percebi que o único culpado desse fracasso que dói fui eu mesmo. Me declarei incompetente. Passei de todos os limites. E tudo continua tão imensamente vazio.

Sigo me sentindo um idiota. Um tolo.

Se a vida for mesmo uma estrada, como sempre acreditei, então estou parado há tempos numa daquelas imensas junções de highways, sem a menor ideia de qual é a saída certa. Tem carro buzinando atrás, gente me falando: me segue, reboques a fim de me levar sei lá pra onde. Tem de tudo. E eu, parado olhando isso tudo sem nem saber por onde eu começo.

É uma sensação nova e ruim. Claro que sofrer de amor não é a novidade. O novo é não saber o que fazer. Pensei em criar uma nova fantasia, mas pra que? Cheguei a pegar um grafite para rabiscar outro rosto em outras folhas, mas pra que? O vazio é mesmo um absurdo. Tenho medo que ele me seque.

E segue o baile... espero que em breve com outros ritmos...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Cansado de errar, não de tentar.


Não pode ser tão difícil. Eu sou um cara bacana. Não sou maluco. Não faço barbaridades por aí. Vivo todos os dias de forma intensa, mas isso não me faz um louco, um pervertido ou algo do gênero. Conheço um monte de gente. Cultivo meus amigos e gosto de estar sempre rindo, tomando um chopp, falando da vida sem cair na tentação de falar da vida dos outros. Não estou aqui pra julgar ninguém e também não me importo com os julgamentos que fazem de mim.

Levo a vida de uma maneira tranquila. Meu maior patrimônio é minha filha e meus amigos. E mesmo assim não tenho a sorte de um amor tranquilo com gosto de fruta mordida. Tá na hora de parar pra entender melhor o que diabos estou fazendo de errado. Sim, porque só pode ser isso.

Não costumo fugir da raia. Se eu acho que posso me apaixonar por alguém eu passo a acreditar que ela pode ser “a” pessoa. E essa é a única hora em que eu me permito jogar. Só o jogo da sedução me interessa. O resto é tolice de gente que não sabe viver.

Aí, no caminho você descobre que não é bem assim. Descobre que as pessoas tem tanto medo de viver a vida que normalmente escolhem a banalidade das relações superficiais e não se entregam por nada. Ou então descobre que você precisa se adaptar às fantasias delas porque elas não querem você de verdade, mas querem muito o que elas imaginaram que você fosse.

De um lado o amor raso, no qual eu não acredito e não confio. Do outro o amor falso, muito mais comum do que se pensa, e que não me interessa nem por um minuto. E eu sigo sem encontrar.

Me visto de poeta e busco um mundo mais bacana, mais romântico, mais intenso. Sei o quanto isso pode ser sedutor e interessante. Também é sedutor e interessante para mim e por isso sigo da forma que eu escolhi. Mas de vez em quando cansa.

Pra que servem as fantasias? Talvez para amenizar a realidade da vida, é o que me dizem os que já desistiram de acreditar e se acomodaram em relações boas o suficiente para a sobrevivência. Talvez as fantasias sirvam como escudo, protegendo, enganando, disfarçando. Talvez as fantasias não sirvam para nada. E pensando assim me pergunto de novo: por que é que eu gosto tanto da vida com fantasia?

Gosto porque tomo posse de um outro tipo de vida. Uma vida feita só das coisas que eu gosto. Nela coloco um tanto de música, outro tanto de romance, uma porção generosa de viagens e passeios, salpico de amigos por todos os lados, cubro com amor intenso e acendo o fogo da paixão para deixar tudo com sabores que justifiquem a vida.

Se não for assim serei apenas mais uma pessoa. E não me importo de parecer apenas mais uma pessoa para os outros. Mas para mim mesmo? Não posso! Tenho que ser a melhor pessoa que eu conseguir ser todos os dias. Tenho que fazer todos os dias mais bacanas do que os dias anteriores. Tenho que brigar pela minha sanidade que nada tem a ver com o que os outros entendem como sanidade. Pouco me importam as opiniões dos outros quando o assunto é amor. Nesse campo quem manda é o coração. Só confio nele apesar dele já ter me traído tantas vezes. A escolha é minha.

Estou cansado de errar, não de tentar.

E segue o baile.

Cazuza Todo Amor Que Houver Nessa Vida!

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Velhos Amigos


Os amigos tinham envelhecido muito e ele começou a sentir-se um tanto deslocado. Perguntava-se como era possível que mesmo tendo a mesma idade ele pudesse ser tão mais jovem do que todos os outros. E mesmo assim não deixava de se encontrar com eles para o chopp de sempre.

- Às sete? Como assim? Por que tão cedo?

E cada um tinha sua própria desculpa. O fato é que eles não aguentavam mais ficar até altas horas bebendo e conversando. Queriam tomar dois ou três chopps, entrar num táxi e voltar correndo para suas casas. Ele era sempre o último a sair.

Naquele dia ele não ficou só. Um de seus melhores e mais queridos amigos de infância estava de férias e resolveu aguentar o tranco junto com ele. Os outros teimaram em olhar para o relógio e a repetir as caras de espanto para em seguida partirem correndo.

- Rapaz, você não mudou nada!
- Que isso. A gente envelheceu. Já não somos mais meninos.
- Eu envelheci, mas você continua o mesmo.

E ele sabia que era verdade. Estava sentado com um cara que tinha exatamente a mesma idade que ele. Um cara com quem jogou muito futebol. Um companheiro de noitadas inesquecíveis. Mas não o reconhecia. Hoje, os cabelos brancos e as rugas marcavam a fisionomia do amigo. A forma com que se sentava e as roupas que usava denunciavam um homem bem mais velho. Deixou se perder nos pensamentos, enquanto escolhia as palavras, para depois dizer:

- Posso fazer uma pergunta íntima?
- Claro. Somos amigos há tantos anos. Não temos segredos.
- O que aconteceu com você? Por que você está se vestindo assim? Por que parece tão cansado?

E o amigo querido respirou fundo e entendeu que aquele era apenas o início de uma longa conversa. Começou lembrando os tempos do colégio, quando se conheceram, da faculdade que escolheu e dos rumos que deu na vida. O amigo tinha feito um grande planejamento para a sua vida. Formou-se engenheiro e foi trabalhar ainda estudante. Foi contratado e passou a se dedicar mais do que todos os outros na busca do seu sucesso profissional. Seguiu os passos do pai e passou muitos e muitos anos trabalhando incansavelmente. Não havia finais de semana nem férias. Chegava antes dos outros e saía depois de todo mundo. O amigo era um exemplo profissional e logo sua carreira decolou. Assumiu cargos de chefia. Tornou-se um diretor importante. Foi convidado para ser sócio da companhia e continuou mantendo a sua rotina de sempre.

- Essas são as minhas primeiras férias desde que comecei a trabalhar. E isso já tem trinta anos – confessou. Estamos num momento complicado na empresa. Todos os sócios estão formando seus filhos para uma sucessão que deve acontecer ainda este ano. Todos, menos eu. Meus filhos não querem saber de engenharia. Passam o ano viajando e curtindo a vida. Estou triste com isso. No final do ano me aposento e ainda não tenho ideia do que fazer. Tenho medo da solidão. Medo de passar dos limites com meus filhos. E tenho saudades da mãe deles... nunca mais nos vimos. Soube que ela está casada e feliz, mas ainda sinto sua falta.

- Rapaz, essa conversa faz você parecer um ancião. Com tanta coisa no mundo para ver e viver, você fica se lamentando porque vai ter tempo pra tudo? Não dá pra entender. Você acha que vai ficar em casa de pijamas e chinelos? Honestamente, acho que você perdeu muito tempo na vida. Sua luta sempre foi pelo “ter” e isso você conseguiu. Mas não adianta apenas ter se você não se preocupar também em “ser”. Faz assim: pega um papel e divide em dois. De um lado escreve o que você tem, do outro o que você é.

O garçom trouxe uma caneta e eles começaram a rabiscar no guardanapo.

Eu tenho... um apartamento, uma casa em Búzios, um sítio na serra, um carro do ano, uma conta bancária bacana, investimentos diversos, quadros maravilhosos, roupas incríveis, relógios caros....

Eu sou... um exemplo profissional, um cara bem sucedido, um workaholic, um chefe justo, um...

- Continua!
- Acho que não. Já entendi o que você está querendo me mostrar. O que eu não sei é como mudar isso. Estou velho demais. Mal me dou com as crianças que só me procuram quando querem dinheiro. Ando muito sozinho.
- Olha só. Você precisa entender que só existe o hoje. O ontem já foi e o amanhã não começou, nem começará nunca. Só tem o hoje! Por isso, se eu fosse você, antecipava sua aposentadoria. Comprava uma passagem e ia encontrar seus filhos onde eles estiverem. No caminho, seja no avião, no aeroporto ou em qualquer lugar, preste atenção nas pessoas que passam por perto. Você vai ver gente feliz e gente triste. Escolha sempre as pessoas felizes. Puxe uma conversa. Faça novos amigos. Não tenha medo de se apaixonar. Se você achar alguém interessante chame para conversar, convide para sair, vá dançar, mostre o nascer do sol, dê flores. Entregue-se.
- Nessa idade?
- Que idade? Isso é bobagem! Viva o hoje!

E a conversa continuou por apenas mais um chopp. A saideira. Cada um seguiu um rumo diferente. As palavras fizeram eco nos dois. O amigo ficou de pensar melhor. E ele chegou em casa e foi direto fazer as malas.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Menina que nunca mais vi


(vinte anos depois)

Eu tinha saído de uma grande agência e montado a minha pequena consultoria. Nessa época eu morava em São Paulo e as coisas prometiam encontrar um caminho bom. Logo de cara consegui alguns clientes que me mantinham com as contas pagas e curioso para saber de tudo o que acontecia no mercado.

Um dia alguém me falou de uma menina e seus projetos e acabamos marcando um encontro.

Ela veio ao meu escritório e logo na primeira olhada pensei comigo: “vai ser difícil prestar atenção no projeto”. Sentamos numa mesa de reunião e ela pacientemente foi me contando o que fazia e o que não fazia, o que era e o que não era. E eu me esforçava para tentar entender, mas meus olhos estavam fixos nos olhos dela que cismavam em desviar.

A conversa evoluiu, tomou outro rumo e ela me contou um pouco da sua vida. Da sua paixão pelo mar e de uma viagem que estava por fazer rumo ao extremo sul do mundo. Quanto mais eu ouvia as histórias mais encantado ficava. Pensava quieto que tudo o que me ligava ao polo sul era a minha paixão por pinguins, mas naquela conversa virei um especialista no assunto tentando me mostrar interessante para a menina que me fascinava.

Marcamos outra reunião, antes da sua viagem, com o pretexto de conhecer melhor alguns detalhes do projeto e voltamos a nos ver.

A essa altura eu já sabia que ela tinha um namorado e que o cara era bem conhecido. Sabia que minhas chances eram nenhuma. Mas não sabia como tirar aqueles olhos da minha memória.

Nesse encontro gastamos pouco tempo com o projeto e bastante falando da vida, amores, sonhos, desafios e outras bobagens sem compromisso. A conversa era boa. Ela estar por perto era bom e ficamos assim até perdemos a hora e até que um de nós olhasse no relógio. O tempo não estava ao nosso lado.

Desci com ela até a garagem. Esperei seu carro. Ia me despedindo aos poucos como se soubesse que não voltaria a vê-la. Desejei boa viagem. Disse que se agasalhasse. Avisei que continuaria no mesmo lugar e a vi partindo com um sorriso doce no rosto.

Depois, muito tempo depois, minha secretária aparece na minha sala com um embrulho e um envelope. No embrulho uma caneca de pinguins que guardo até hoje. No envelope uma pasta transparente com alguns peixes e outros recortes de papel colorido que simulavam o fundo do mar. Junto, um bilhete carinhoso da Menina que nunca mais vi.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Menina dos Sonhos


Um caso de polícia. Roubaram as minhas fantasias. Acordei de manhã e procurei em todos os lugares. Onde será que eu guardei? Foi o que pensei primeiro. Depois, lembrei-me que elas estavam ali ontem à noite. Conversei com elas antes de dormir. Disse-lhes que estava frio e que era importante que se cobrissem para não ficarem doentes. Beijei-lhes e dormi.

Hoje acordei cedo como sempre. Olhei para o lado e elas não estavam mais lá. Chamei-lhes pelo nome, mas não me atenderam. Levantei-me para fazer o café – sempre penso melhor depois do café. Andei pela casa e lá elas não estavam. Sentei-me na cama e me preocupei: por onde andaram minhas fantasias?

Será que se transformaram em gatos no meio da noite e, furtivamente, ganharam as ruas e as matas que cercam minha casa? Será que foram ver se a lua estava mesmo cheia e se ela formava os desenhos que gostavam de ver nas noites apaixonadas? Será que desistiram de viver como fantasias na minha vida de poeta? Talvez... Talvez elas tenham se transformado em realidade, pensei. Talvez sejam como lagartas que dormem em casulos e acordam de manhã ganhando asas e se transformando em borboletas. Olhei para cima, mas borboletas não havia ali.

Preocupado busquei o jornal. Quem sabe haveria uma notícia sobre elas. Não havia. Tomei a segunda caneca de café e fumei um cigarro para que tentasse ver na fumaça o vulto delas, mas não vi. Abri meu livro de cabeceira para ver se era lá que se escondiam, mas não era. Voltei a deitar. Precisa pensar no que seria de mim sem minhas fantasias. Meu poeta morreria de angústia e de tristeza. Logo ele, meu companheiro de tantos anos. Tomei mais um gole de café. Acendi outro cigarro. E chorei.

Minhas lágrimas caíram uma a uma pelo rosto do menino triste em que em transformara. Chorei de saudades das fantasias que tanta companhia me fizeram e que tantas histórias doces me contaram. Chorei a ausência física. Chorei o choro de uma criança magoada que dói de ver, que entristece até o mais duro dos corações. Chorei e dormi.

...   ...   ...

- Mas que demora! Por onde você andava? – foi a primeira coisa que ouvi.

Nem consegui responder ou mesmo entender quem me perguntava. Logo uma segunda voz me dizia: - Você está atrasadíssimo! E uma terceira completou: - Agora preste muita atenção em tudo, se não você não vai entender nada.

E eu que já não entendia nada mesmo reconheci naquelas vozes a minha própria voz e logo descobri que eram as minhas fantasias que estavam me dando aquela bronca. Calei-me e observei.

Na minha frente qual fosse mágica uma enorme tela de cinema se abriu. Dentro, campos verdes e floridos em um lindo dia de sol se mostravam exuberantes. Havia vozes ao fundo. Havia pássaros. E havia também um doce cheiro de jasmim espalhado no ar.

As vozes se aproximaram e pude me reconhecer. A meu lado uma menina linda andava insegura. A menina dos sonhos tinha medo, eu podia sentir. Não conseguia ver seu rosto, mas sentia seu calor e sua vida. Ela seguia quieta e amedrontada e eu apenas caminhava a seu lado, de sorriso aberto, puxando forte o ar tomado de jasmim e olhando cada uma e todas as flores do caminho.

Paramos no alto de um pequeno morro coberto e cercado de verde com pitadas de cores por todos os lados. Sentamos no chão com as pernas cruzadas, um de frente para o outro. Em silêncio. Ficamos assim por um tempo, mas não consegui me controlar e logo tomei suas mãos com as minhas e perguntei:

- Do que você tem medo?
- De sofrer. Tenho medo de sofrer de amor.
- Sofrer de amor? Isso não existe!
- Claro que existe. Tantas vezes eu achei que tinha encontrado meu amor verdadeiro e tantas vezes eu sofri por descobrir que estava errada.
- É como eu disse. Você não sofreu de amor. Sofreu por não ser amor.

E logo percebi que entraria em mais um jogo de palavras e de sedução que me levaria ao mesmo lugar em que já estive tantas vezes e calei. Ela me olhou e me pediu que explicasse. Disse que não. Eu não ficaria ali, no meio do meu sonho, explicando a ela o que ela já sabia. Disse-lhe que o momento era único e seria perdido se não o vivêssemos, mas que eu não poderia lhe impor isso. A escolha dela teria que ser só dela.

Seu rosto mudou. Suas feições ganharam, no meio do meu silêncio, outra vida. Eu podia ver que ela estava pensando. Podia entender que a transformação estava acontecendo. E só me restava torcer.

- Você sente o cheiro no ar?
- Jasmim, minha flor preferida!
- Você percebe o canto dos passarinhos?
- Sim. É como música.
- Você vê a beleza indecente das flores?
- Que de tão simples ofuscam qualquer outra. – completei.

E olhando um para o outro, vimos nossos sorrisos crescerem fortes. Nossas mãos já entrelaçadas faziam força para que nunca mais se separassem. Nossos corpos quentes se juntavam em movimentos sutis de quem quer apenas estar perto, sempre perto.

E, vendo tudo isso, torci por um beijo na imensa tela. Suspirei porque os suspiros enchem a alma de emoções e esperei pela cena final. De longe ouvi uma voz dizendo meu nome, repetindo meu nome, repetindo meu nome... e acordei, antes do beijo, para que eu pudesse continuar sempre sonhando e para não esquecer nunca mais onde moram minhas fantasias.

Desejos

(É o que desejo pra quase todo mundo que passou na minha vida...)


Desejo pra você o melhor que a vida puder lhe dar. Desejo amores. Desejo amigos. Desejo sorrisos e desejo mais. Desejo que você conheça todos os desejos e que experimente apenas os que valem a pena experimentar. Desejo que sua vida seja boa e mansa, mas também que seja divertida e agitada – cada coisa no seu tempo.

Mas para desejar isso preciso dizer que o melhor que a vida puder lhe dar depende de você. Porque, como repetia incansavelmente a minha avó: o mínimo que você pode fazer é o máximo que você conseguir. Então faça o máximo, dê de você mesma tudo o que você conseguir dar. Não deixa para amanhã o que vale a pena fazer agora e deixe pra lá o que não vale.

Os amores que desejo a você são apenas os bonitos. Amores que podem ou não dar certo, mas que vão fazer você voar alto, vão fazer você querer comer pipoca no cinema, vão te levar pra longe em viagens inesquecíveis, vão tomar seus sonhos de assalto e vão grudar sorrisos no seu rosto todos os dias.

Os amigos que desejo pra você são amigos mesmo. Daquele tipo que você pode ligar as três da madrugada e pedir ajuda e ter certeza de que ele vai estar lá para você. Não desejo amigos que lhe julguem, desejo os que aconselham e que mesmo dizendo que você está errada acabem as frases dizendo sempre: decida o que quiser, vou estar do seu lado. Desejo amigos que lhe façam surpresas. Desejo amigos que lhe façam companhia. Desejo amigos que ajudem sem perguntar e que perguntem sempre se você precisa de ajuda.

Desejo sorrisos no seu rosto. Porque ele se ilumina com os sorrisos. Mesmo quando você estiver sozinha, não se esqueça de sorrir. Se faltarem motivos, me ligue. Vou contar uma história engraçada, sem pé nem cabeça, apenas para ouvir você sorrindo. E seja generosa com esses sorrisos. Não os guarde para você. Distribua pelas ruas, nos elevadores, onde estiver.

Desejo que você conheça todos os desejos que valerem a pena. E que se descubra neles sem medo de ser feliz. Que você esqueça os preconceitos, que passe por cima dos medos e inseguranças e que consiga viver de verdade, todos os dias da sua vida. Desejo que você acorde todas as manhã pensando no desejo de cada dia. E desejo que você entenda que eles são o combustível da própria vida.

E que a sua vida seja boa, sempre. Que você já tenha aprendido o valor das coisas para não precisar perder mais para aprender. E que ela seja mansa, no sentido em que ela possa ser vivida sem drama, sem exageros, sem perder o controle. Que sua vida seja sempre muito divertida com amigos, descobertas, viagens, família, crenças e desafios vencidos com alegria. E que ela seja agitada no ponto certa pra você entender que só se vive uma vez.

Seja sempre feliz!

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Nem uma vela em dia de Finados


Tirei do ar o blog que escrevi durante um ano e meio para uma pessoa que me era muito especial. Eu já não escrevia nele desde fevereiro deste ano quando postei uma espécie de despedida e me disse pronto para viver meu luto. O estranho é que esse blog continuava a receber visitas. Possivelmente de gente curiosa em ver o fracasso de uma relação intensa.

O fato é que comecei a pensar nas razões que me faziam manter o blog por lá e não encontrei muitas. A pessoa pra quem eu tanto escrevi e pra quem tanto me dediquei jamais respondeu nenhum dos posts por mais carinhosos que fossem. Também não respondeu os agressivos. Nunca respondeu nada. Preferiu sair de cena no meio do espetáculo sem esperar o final e transformou um diálogo num monólogo e lá fiquei eu em cena aberta fazendo papel de idiota. E fiz esse papel por muito tempo, tempo demais.

O gatilho pra tirar o blog do ar foi a ausência no meu aniversário. Nem um SMS, uma mensagem por Facebook, um recado, um sinal de fumaça. Nada. Esse vazio me permite imaginar o que eu quiser. A escolha é só minha. E cheguei à conclusão de que realmente a pessoa, por quem me apaixonei e que tanto amei, nunca deu a menor importância para o que eu senti. Só se preocupou com o que ela mesmo sentiu e com as ameaças que eu representava na lógica (?) de vida que ela escolheu.

Me senti várias vezes como se eu estivesse sendo assaltado. Tipo assalto à mão armada. Aquele que gera uma insuportável sensação de impotência. Fui roubado nos meus sentimentos e tive que ficar com os braços para o alto, sem falar nada. Imagina a cena: “Passa seu amor ou leva tiro! Manda seus sentimentos pra cá e não adianta esconder o tesão não...passa tudo!”.

De vez em quando me lembro com carinho dos bons momentos e das marcas que ela deixou em mim. Eu tinha acabado de sair de um casamento longo e muito bem sucedido. Tinha acabado de perder meu pai. Tinha acabado de fechar minha empresa. Tinha quebrado. Estava completamente fragilizado e decidido a não ter pena de mim mesmo. Acordava todos os dias pensando que aquele dia seria melhor. Que alguma coisa de muito boa ia acontecer. Tomava café, lia o jornal, tomava banho e me arrumava a espera de conseguir uma entrevista ou um encontro que me gerasse bons frutos. Segui todos os dias acreditando que tudo poderia melhorar até que um dia melhorou mesmo.

Foi no meio dessa bagunça que ela apareceu. E a vida dela não estava muito melhor do que a minha. Ela tinha todas as dúvidas do mundo sobre o seu próprio futuro. Tinha questões pessoais e profissionais a resolver e a vida dela também não estava fácil. Tentei, ou pelo menos acho que tentei, dar de volta o mesmo apoio que ela me deu. Nossas brigas eram virtuais porque juntos normalmente estávamos bem. Mas nessa época morávamos longe e era mais fácil estarmos distantes do que perto um do outro e as brigas se multiplicavam.

Criei uma fantasia nessa mulher. Imaginei que ela fosse assim ou assado. Vi nela coisas que nunca tinha visto antes e que queria ver sempre. Imaginei que ela fosse a pessoa certa. Demorei a me entregar, mas quando me entreguei foi pra valer, “de com vontade”. E nada disso adiantou de nada. A não ser pra me fazer ver que eu estava apaixonado por um ideal de vida e não por uma mulher de verdade.

Tentei de todas as formas estar junto. Respeitei quando ela quis ficar sozinha. Estive presente quando achei que devia. Escrevi sobre o que havia de mais bonito e de mais triste. Sorri e chorei sem vergonha de sorrir ou de chorar. Não tive pena de mim. Tive pena de ver um sentimento tão bonito sendo jogado fora da forma que foi.

Procurei em outras pessoas o que senti por ela. Não achei. Procurei a cumplicidade das palavras e dos gestos. Procurei o que ela me fazia sentir. Procurei o carinho. Procurei as tolices. Não achei.

Achei pessoas muito melhores do que ela. Pessoas grandes, cheias de razões para se orgulharem de quem são. Achei pessoas lindas, muito mais bonitas do que ela. Achei pessoas fortes, muito mais guerreiras do que ela. Achei pessoas corajosas, muito mais do que ela... mas isso é fácil. O que não achei foi a mim mesmo nestas pessoas. E por isso todas as minhas relações fracassaram de um jeito ou de outro.

Talvez o fracasso esteja na essência da própria busca. Talvez, enquanto estiver procurando a mim nos outros não ache nunca nada. Talvez...

O fato é que preciso viver intensamente uma relação de verdade com objetivos grandes. Essa coisa de beijar por beijar, transar por transar, sair por sair. Isso tudo não me interessa nem um pouco. Mas acabo saindo, acabo beijando, acabo transando. E acho que faço isso para me sentir vivo enquanto não encontro a pessoa que eu acredite ser a pessoa certa de verdade. É muita incompetência!

Venho a esse blog botar pra fora meus sentimentos. Falo da menina sorriso, da menina de covinhas, da menina de longe e de outras meninas que povoam o meu imaginário e a minha vida. Mas com nenhuma delas eu consegui viver de verdade o grande amor. Talvez ainda viva. Talvez encontre em quem eu já conheço o que fico procurando em quem eu não conheço. Mas ainda não aconteceu de verdade. Por essa ou por aquela razão, sigo sozinho e me sentindo sozinho.

Não corro o risco de desistir disso. A busca pelo amor é o que me move e o que me mantém vivo. Vou continuar buscando. Vou continuar tentando. Vou continuar me permitindo errar e vou continuar cuidando para não machucar ninguém.

Mas a mulher para quem eu dava bom dia todos os dias. A quem eu perguntava sempre se já havia dito que ela é linda. A mulher para quem eu escrevi por mais de um ano e meio e que não me deu sequer parabéns no meu aniversário. Essa morreu e não merece nem uma vela em dia de Finados.

E segue o baile.


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Obrigado


Gosto de gente. Gente me faz bem, seja que tipo de gente for. Por isso resolvi reunir o maior número de pessoas que eu conseguisse no meu aniversário, dia 25. Pensei e logo coloquei em prática uma “campanha” para reunir as pessoas na Academia da Cachaça do Leblon, um lugar que eu adoro e que me traz as melhores recordações, de todas as épocas da minha vida.

A primeira vez que fui a Academia ainda não tinha nem vinte anos de idade. O lugar era novo e ainda pequeno. O nome despertava a curiosidade. Fui como um calouro entrando na faculdade pela primeira vez. As pessoas já estavam por lá, mas duas coisas me chamaram a atenção. A primeira era o teto, feito com fitas verdes e amarelas que juntas formavam a bandeira do Brasil. Achei lindo. A segunda era a imensa coleção de cachaças expostas nas vitrines e prateleiras da Academia. Era muita coisa. Era muito para aprender naquele templo erguido para celebrar a amizade. De lá pra cá, esse lugar sempre fez parte da minha vida e a escolha acabou sendo natural.

Convidei todos os meus “amigos” de Facebook e olha que são mais de duas mil e trezentas pessoas. Lancei a ideia um mês antes do dia e relembrei todas as semanas, tentando deixar claro que ter meus amigos por perto seria para mim o melhor presente de todos. Para algumas pessoas eu ainda reforcei o convite com um lembrete especial enviado individualmente. Não queria correr o risco de ficar sem elas por perto.

Marquei cedo. Não reservei uma mesa, mas uma área da Academia. Cheguei antes da hora e para a minha surpresa já havia gente por lá. Uma gente querida que havia transformado a Academia em uma casa de festas com direito a luzes, enfeites, chapéus e corações espalhados pelo lugar. Minhas amigas Marcia Carrilho e Evangelina Cruz se superaram na arte de proporcionar momentos inesquecíveis e eu nem saberia como agradecer tanto carinho.

Aos poucos o lugar foi se enchendo de pessoas adoradas e adoráveis. Mais de duzentas. Reuni diversos grupos que, juntos, são os únicos responsáveis por eu ser quem eu sou. E ganhei abraços, beijos e carinhos deliciosos. E juntos brindamos, rimos, conversamos, lembramos e esquecemos. Que coisa boa é estar cercado dessa boa onda. Citar nomes é perigoso porque posso e vou esquecer alguém e isso não seria nada bom, mas o lugar estava cheio de Anas, Andreias, Alessandras, Thaizes, Isabels, Brunos, Luizes, Luizas, Rodrigos, Patricias, Marcias, Marias, Rosanes, Tonys, Christianas, Cristianas, Marcios, Michels, Zecas, Monicas, Denises, Guetas, Paulas, Marinas, Nancys, Manuelas, Paulos, Robertos, Fernandas, Dilsons, Jacksons, Bernardos, Felipes, Priscilas, Georgias, Dudas, Kikos, Virginias, Thomas, Martas, Stellas, Vanuzas, Claudios e muitos outros nomes importantes na minha vida.

No meio delas, algumas pessoas me enchem de felicidade. Primeiro minha ex e querida mulher, Ursula. Que privilégio ter nessa companheira uma amiga capaz de participar do meu aniversário, se divertir e me abraçar com o mesmo carinho que nos uniu. Depois, Socorro uma irmã tão irmã que nossas briguinhas birrentas parecem sempre brigas de irmão que disputam quem vai sentar na frente do carro dos pais e coisas assim. E por último a mais importante das pessoas da minha vida: minha filha Sophia que me enche de orgulho, carinho e amor e me lembra todos os dias que o amor incondicional é possível e é o melhor que pode haver.

Claro que tenho vontade de falar de cada uma das outras pessoas que estiveram lá... Marcia, por exemplo, que não mediu esforços para estampar um sorriso no meu rosto. Vanja, tia herdada do meu casamento, não pode ser mais querida e dedicada. Monica, cheia de um carinho único e especial. Rosane, mulher de fibra e caráter únicos que admiro incansavelmente. Mas o risco de deixar alguém triste por não ter sido falado ou lembrado é imenso e desnecessário.

Sim, senti falta de algumas pessoas fundamentais na minha vida também. Falta do meu irmão de sangue, falta dos meus irmãos de vida, falta de algumas das maiores e melhores amigas que já tive, falta de amores do passado que preferiram não ir, falta imensa da Menina de Longe e falta do meu pai e da minha mãe, que estão sempre comigo. Mas cada um a seu jeito esteve e está sempre comigo. Gente que me importa e que se importa comigo.

No dia seguinte as lembranças boas me acompanharam. Me senti rico. É muita gente e muita sorte de ter tantos amigos tão queridos. Por isso hoje escrevo apenas para dizer obrigado. 

terça-feira, 24 de julho de 2012

Nascimentos...


Primeiro Nascimento

Era uma noite fria em São Paulo. O inverno castigou naquele ano e todos viviam agasalhados pelas ruas. São Paulo fica mais cinza no inverno, mas as pessoas ficam mais bonitas. Era bom de ver o contraste da gente paulistana com os prédios de concreto armado.

Ela estava cansada. Os nove meses já haviam passado e a barriga tornara-se um fardo. Não um fardo ruim, mas um fardo de quem guarda dentro de si uma vida, de quem já não aguenta mais a curiosidade para ver o rosto, sentir o cheiro e ver a família completa.

Em casa, o menino de um ano um mês e cinco dias passara o dia mais calmo do que o normal. Naquela tarde a rotina dele mudaria para sempre, mas ele não sabia. A velha babá foi escalada para cuidar do pequeno primogênito. A bolsa rompera e a hora tinha finalmente chegado. Foi o tempo de avisar seus pais e seu marido que estava chegando do trabalho. Ele disse que estava tudo certo, só queria pegar um livro para lhe fazer companhia na maternidade e pronto. As malas também estavam prontas.

No caminho, rumo à maternidade São Paulo, entre uma contração e outra, eles comentaram: - Será menina? Será menino? E ele respondeu: - Acho que será uma menina: Renata! E ela duvidou: - Será um menino e terá o nome do meu padrinho; Eduardo! Ele achou melhor não teimar e continuou subindo as ruas de Cerqueira César rumo à Av. Paulista que precisava ser cruzada para chegar à Maternidade.

O médico já havia sido avisado e estavam todos prontos para os procedimentos necessários. As perguntas de praxe foram feitas. As roupas trocadas pelos (sempre ridículos) aventais de hospital e ela levada, de maca, para a sala de parto. Não sem antes perguntar ao marido: - Você não vai entrar? E ouvir o que já esperava ouvir: - Deus me livre. Você sabe que não aguentaria assistir. Um beijo carinhoso e ela foi, sozinha, enfrentar seu segundo parto.

Já era tarde, quando as contrações ganharam força e o médico avisou que não demoraria muito mais. Às duas da manhã daquele vinte e cinco de julho tudo ganhou mais força e o médico confirmou: - Agora vai! Já estou vendo a cabeça... vamos... força... respira... vai... força... descansa um pouco... acho que na próxima vai... vamos lá?... força.... isso.... tá nascendo...tá nascendo... pronto.... nasceu... você é mãe de mais um menino e ele é perfeito!

Mas ela só sossegou quando ouviu o choro. Logo, a criança foi avaliada, limpa e enrolada em um cobertor, para só então ser colocada no colo da mãe, ainda exausta. Ela apenas olhou e disse: - Seja bem-vindo meu filho. Seja bem-vindo Eduardo.

O pai foi avisado pela enfermeira que o seu segundo filho tinha nascido. Riu por dentro sabendo que o nome Renata, com muita sorte, talvez fosse dado a alguma neta no futuro e que ele seria na vida o pai de dois meninos.

Quase que ao mesmo tempo chegaram à recepção da maternidade o pai e a mãe dela. Ele os cumprimentou e foi logo dando a boa notícia: - Nasceu o Eduardo! Os avós queriam ver a filha e o neto. Naquele tempo ia cada um para um lado e a mãe ainda demoraria um pouco na sala de parto. Por isso seguiram até o berçário e chegaram a tempo de ver a enfermeira colocando as primeiras roupinhas no recém-nascido. A criança não parava quieta e o avô logo disse: - Ele não para, mexe em tudo...parece um bole-bole! E a avó respondeu: - Ele é lindo, um pequerrucho! E esses apelidos dos avós o acompanhariam por toda a vida.

Os pais dele também logo chegaram. Ela disse ao filho que tinha orgulho dele e agradeceu mais esse presente para a família. Ele disse ao filho que desejava sucesso, sorte e que o neto fosse um vencedor na vida.

.......

Segundo Nascimento

Foi numa noite em que ele não tinha sono. Leu algumas poesias em um livro roubado da estante do pai. Ouviu algumas músicas que transformavam versos em melodia. E resolveu pegar papel e caneta para tentar rabiscar seus primeiros versos.

Evocou a inspiração como quem pede que o Anjo da Guarda fique ao lado na hora de dormir. Começou inúmeras vezes. Fez de algumas frases soltas bolinhas de papel que atirou com perfeição no cesto de lixo. E seguiu tentando sem sucesso madrugada adentro.

Olhou pela janela o movimento da rua. Do outro lado havia uma boate famosa naqueles tempos e volta e meia ele via sair um casal rindo, uma moça triste, um rapaz bêbado, três pessoas excitadas e todo tipo de gente que fosse possível imaginar. Logo, ele se deixou levar pelo clima boêmio daquela janela. Começou a imaginar o tanto que ainda havia por vir. E nos tantos momentos como aquele em que ele seria visto por algum menino pendurado em alguma janela de alguma cidade. Imaginava e sorria.

E mesmo perdido na sua imaginação não deixou de perceber o momento em que um casal saiu apaixonado da boate. Eram muitos beijos, eram muitos abraços, era muito carinho. Logo ele se deu conta de que aqueles dois eram diferentes e dedicou atenção exclusiva ao que ele entendeu pela primeira vez como sendo uma bela cena de amor. Ele berrou: - Eu te amo! E ela berrou mais forte ainda: - Eu te amo! E ele desejou berrar e ouvir um berro como aquele pelo menos uma vez na sua vida.

Voltou para a escrivaninha de menino e recomeçou a escrever. Antes, porém, lembrou-se da Menina do Recreio por quem ele tinha o maior amor que poderia caber no coração de um menino tão novo. Pensou e se deixou levar pela deliciosa fantasia. Logo ele estava de olhos fechados berrando no recreio do colégio: - Eu te amo! E ouvindo dela um berro ainda mais alto: - Eu te amo!

E nessa hora seu coração encheu-se de uma maneira que ele não conhecia. Aquele amor deu-lhe um novo ritmo. O sorriso parecia eternizado no seu rosto e a mão buscou a caneta para descer em versos fáceis, de menino, rimas que se entrelaçavam e funcionavam como um fio terra para aquela energia mágica. E escreveu um, dois, três, incontáveis poemas de amor naquela noite que não teve fim.

Leu, pela manhã, as linhas mal traçadas e tornou a sorrir. Descobriu naquele momento que o Menino Poeta havia nascido.

...............

Terceiro Nascimento

Quem disse que ele conseguia dormir naquele 15 de abril. A cesariana estava marcada para a manhã seguinte e a cabeça dava voltas e mais voltas. Ela também não dormiu. De tempos em tempos um chamava o nome do outro baixinho só para saber se o outro tinha conseguido dormir, mas nenhum dos dois conseguiu.

Antes das cinco ele desistiu de ficar na cama e levantou-se para fazer e tomar um café forte e puro. A cabeça estava na ansiedade daquele dia. Ela não podia comer nem beber nada e ele tomou o café longe para não enchê-la de vontade. Quando voltou ao quarto, ela já estava saindo do banho. Ele entrou e tomou um banho diferente. Aproveitava a água caindo e rezava para que tudo corresse bem no parto. Naquele tempo ele soube que existia uma certa Nossa Senhora do Bom Parto e foi com ela que ele se agarrou. Estranho depois de repetir tantos anos o “agora e na hora de nossa morte” estar ali pedindo apenas pela hora do nascimento.

Depois do banho, a excitação era tão grande que ele não demorou a se vestir e logo os dois saíram de casa rumo a maternidade. Malas prontas, enxoval feito, lembranças compradas. Tudo certo, menos o fato de que estavam duas horas adiantados. Mas que diferença fazia? Nenhuma.

Na maternidade o momento da burocracia. Ele nunca havia visto tanto papel e tanta autorização. E, pior, ele tinha que assinar tudo sob o risco de suspenderem a cesariana. Com aquilo, ele assumia a responsabilidade de qualquer barbeiragem dos médicos ou do hospital. Mas isso também não fazia diferença. Ele sabia que nada daria errado.

Foram para uma sala de espera reservada aos futuros pais e mães. Lá, percebendo a angústia dela, ele começou a fazer suas palhaçadas. Roubava uma máscara cirúrgica daqui, uma luva dali e logo tinha um balão nas mãos ou estava brincando de bandido e mocinho mascarado. Ele ria do jeito infantil e ele disfarçava a sua própria angústia no esforço de acalmá-la.

Hora de trocarem de roupa e de esperar na antessala. Ela na maca que a levaria até o centro cirúrgico e ele, sempre ao lado, agradecendo a todo instante pelo momento que antecipava.

Ela entrou antes para receber a anestesia. Os médicos não o deixaram ver o tamanho da agulha e ele teve que esperar alguns infindáveis minutos.

Quando pode entrar. Preparou sua câmera e viu sua mulher de braços abertos, completamente dopada e uma equipe dizendo coisas que ele preferia não ouvir, do tipo: - E aí? Já deu? Ou – Abre um pouco mais pra passar melhor... enquanto isso ele fotografava qualquer coisa, tenso e cheio de esperanças. Ela não mostrava muitas reações. Até que chegou o momento mágico em que a médica puxou de dentro dela e pelas pernas aquela que seria a sua obra-prima.

Nascia naquele lindo dia dezesseis de abril sua filha mais que amada e renascia ele como o pai que se esforçaria todos os dias pra ser e para merecer ser pelo menos o melhor que conseguisse.



segunda-feira, 23 de julho de 2012

Sujeito à Análise de Crédito


As pessoas de hoje são assim, não confiam em ninguém. Você é culpado até que se prove o contrário. Pode tentar ser um cara bacana, desarmado e entregue às infinitas possibilidades da vida, que isso não vai adiantar muito. Você vai ver que tem sempre alguém pra dizer que você não é de verdade ou que você está fingindo.

A regra de hoje é tão difícil de entender que a chance de você se dar mal é sempre imensa. A primeira regra é: se não tiver envolvimento então estou dentro. Como assim, sem envolvimento? Assim mesmo! As pessoas estão apenas dispostas a viver “uma certa” dose de emoção, desde que isso não ultrapasse o limite de segurança. A busca não é pelo outro que completa, é pelo outro que satisfaz! E isso é uma completa estupidez da raça humana (na qual, obviamente, eu me incluo).

Tenho visto pessoas que acreditam que a vida é um jogo. Aliás, um não, vários jogos. Tem gente que joga xadrez. E os que sabem jogar de verdade só fazem um movimento quando acreditam saber o que vai acontecer dali a umas três ou quatro jogadas – sacrificam o peão, avançam o cavalo, protegem a rainha e brincam com a torre – vale tudo. Os que não sabem ou os que jogam como se estivessem na praça com colegas aposentados entregam o jogo de cara, tombam o rei e não se importam em perder, desde que continuem a jogar.

Tem gente que joga dama num vai e vem de peças brancas e pretas que pulam umas sobre as outras como se não houvesse amanhã. O único objetivo é ganhar, seja o que for, custe o que custar, doa a quem doer. Mas a maior parte gosta mesmo é de jogar poker. Podem ganhar ou perder uma mão, mas seguem jogando, blefando ou apostando alto. São grandes os riscos dos jogadores, mas eles não se importam com isso.

O fato é que as pessoas precisam se conhecer antes de ir em frente numa relação qualquer. Não dá mais pra acreditar que um olhar seja o bastante para construir alguma coisa com alguém. E como as pessoas preferem se vestir com personagens ao invés de se despir deles, os desencontros são muito mais frequentes do que os encontros.

Em pouco tempo estaremos pedindo para as pessoas que chamam nossa atenção preencherem uma ficha, um cadastro com os dados mais relevantes. Tomaremos um chopp ou um vinho para a entrevista inicial de recrutamento e avisaremos o tempo necessário para que a ficha seja analisada. Numa despedida quase formal, um último aviso, do tipo: deixa que eu te ligo! E pronto, está encerrada a primeira fase.

Depois, é bater a ficha da pessoa, primeiro com as redes sociais. Os dados precisam ser idênticos: residência, estado civil, gostos pessoais, gostos musicais, gostos e desgostos de todos os tipos. Ainda nelas, chega a hora de conferir as fotos e os posts. Primeiro os da própria pessoa e em seguida os que os outros falam sobre e para ela e depois que tipo de gente circula o candidato.

Feito isso, uma nota é atribuída e você passa direto ao site da receita federal para checar o CPF. Se estiver ok, você descobrirá que, pelo menos, não há grandes dívidas em nome dele ou dela e seguirá mais tranquilo para a última fase. Hora de Googlar o cidadão ou a cidadã. E isso é crítico.

Digite o nome completo. Primeiro entre aspas para que só apareçam as citações com o nome completo. Assim você descobre se ele tem um blog e sobre o que ele escreve ou, pior, se é personagem do blog de alguém (isso pode eliminar sumariamente a candidatura). Vai descobrir também se ele já foi citado como réu ou autor de alguma ação, se ele já apareceu em algum jornal, algum portal ou mesmo se ele já foi clicado em alguma balada e foi parar num desses ridículos sites que imitam colunas sociais na web.

Em seguida, tente os apelidos conhecidos e os mais prováveis. Apelidos mostram as situações mais inusitadas e ele pode aparecer das formas mais humilhantes ou ridículas possíveis. Respire fundo, é hora da verdade. Siga na busca,

Por último, digite o nome completo com o sinal de mais entre nome e sobrenomes e isso mostrará todas as combinações possíveis. Prepare-se para o pior e tenha sempre em mente que nem tudo o que está na web é verdade, mas muita coisa é.

Se o candidato ou candidata tiver sobrevivido até aqui: corra! Ele ou ela devem estar fazendo parte de incontáveis processos seletivos. Vale cercar por todos os lados e de todas as formas: mande um e-mail, adicione no Facebook (em último caso adicione também no Google+), ligue, twite, envie SMS, faça de tudo, mas de tudo mesmo.

Depois é só aguardar. Se a sua ficha também estiver limpinha talvez role um encontro e quem sabe vocês sejam felizes para sempre.

Irgh.

sábado, 21 de julho de 2012

Uma Sequência de Mão.


Uma sequência de mão. Todas as cartas na ordem certa foram aparecendo na mão dele. Dez, valete, dama, rei e ás. Todas de copas menos a dama.

Aquele jogo já acontecia há muito tempo. Começava como brincadeira entre os amigos de sempre. Nenhum deles jogava se não fosse a dinheiro. Haviam aprendido cedo que se um jogo não fosse jogado com seriedade, não valia a pena ser jogado.

Na mesa, os cinco amigos encontravam seu passado, suas lembranças de infância. Conversavam as mesmas conversas de sempre. Sorriam das mesmas coisas de sempre. E sempre brincavam as mesmas brincadeiras. Aquele jogo de poker significava mais do que apenas mais um encontro. Era quase uma celebração, uma celebração à amizade.

Aquela noite não era diferente. Todos estavam, como sempre, felizes em se encontrar. Cada um era uma parte do outro. Juntos eram um só. E o jogo era o que os unia. Sentados na mesa redonda escolhiam seus lugares, não pela sorte mas por pequenas afinidades. De um lado da mesa ficavam os amigos fumantes. Um não gostava de sentar-se de costas para a porta, outro queria sempre ficar perto da cozinha, sua geladeira e suas cervejas. Os outros não tinham tantas preferências e cediam com mais facilidade.

O jogo começou com o embaralhar das cartas. Um corte. E cinco cartas jogadas na frente de cada um. O amigo do lado fazia a mesa e o seguinte dobrava a aposta. Os fumantes acendiam seus primeiros cigarros e todos levantavam, cada um do seu jeito, suas cinco cartas. Um arrumava o jogo levantando cada carta de uma vez. A outra reunia todas as cartas ao mesmo tempo e forçava uma a uma para o lado permitindo-se ver apenas o suficiente para reconhecer a figura e o naipe. Um olhava carta por carta sem colocá-las na mão e o outro alternava a forma de abri-las em busca da forma que lhe desse mais sorte.

As primeiras mãos mostravam um pouco do que havia de acontecer durante a noite. Quem estava com mais ou menos sorte. Quem estava pensando ou não em blefar. Que tipo de jogo seria aquele. Ele observava, como sempre, os gestos de cada um. Sabia que seu irmão jogava com inteligência e sabia que seus outros amigos jogavam em função da sorte.

Poucos jogos maiores deixavam o jogo mais calmo do que o normal. Um four valeria um prêmio de cada um dos jogadores, mas o four não acontecia. Um full-house ou qualquer jogo acima valeria a opção de pedir e escolher um jogo aberto na rodada seguinte e isso acontecia repetidamente.

As fichas seguiam de um lado para o outro da mesa, trocando de dono por diversas vezes. Ele estava numa noite inspirada. Contava piadas e bebia entre amigos. Seu jogo estava morno, mas ele sabia que haveria de receber uma mão especial. E esperava por ela.

De repente, cartas distribuídas. Uma sequência de mão. Todas as cartas na ordem certa foram aparecendo na mão dele. Dez, valete, dama, rei e ás. Todas de copas menos a dama. Ele tinha uma sequência de mão, mas não era isso o que ele via. Ele só pensava no Royal Street Flush que poderia fazer se trocasse a dama errada pela certa. Se o jogo entrasse, cada um dos companheiros de mesa lhe pagaria um cacife como prêmio além das fichas que estivessem em disputa.

Trocar ou não as damas? Essa era a questão que lhe afligia. Ele pensava que qualquer um no seu lugar seguiria em frente com o jogo de mão e, possivelmente, garantiria as fichas da mesa mostrando o jogo vagarosamente para criar nos outros a sensação que mistura ansiedade, medo e expectativas. Mas no final todos saberiam que o jogo não passava de um jogo mediano que não lhe dava sequer o direito de pleitear uma rodada de aberto. Ele pensava que seria tolo deixar passar a oportunidade de uma vida sem tentar. Um Royal não é um jogo que se faz todos os dias. Um Royal é motivo de comemoração, digno de registro e ele não abriria mão da chance de viver isso.

Apostas feitas e todos entraram no jogo. O primeiro a trocar cartas pediu apenas uma, o segundo pediu três, o terceiro disse não querer cartas. Ele trocou a sua e a dealer também pediu duas cartas. O jogo prometia disputa. O que não quis cartas abria um sorriso cínico no rosto como se já tivesse garantido sua mesa, os demais estavam concentrados torcendo para que o jogo de cada um entrasse. Ele, recebeu sua carta e a colocou no final das demais, abrindo novamente a coleção de cartas de copas, uma depois da outra, até chegar na última que ele puxava devagar, chorando a sorte – como diziam.

A primeira coisa que ele pode ver é que a carta era vermelha e isso era bom. Continuou puxando a carta enquanto os outros já se preparavam para apostar. O jogador que não pediu cartas fez uma puxada alta. Apostou quase meio cacife na mão que veio pronta. O do lado oposto passou antes da hora e ele seria o próximo a falar, mas ainda não havia acabado de abrir as cartas e ainda não conhecia sua sorte. Seguiu puxando e viu que a carta vermelha era uma dama e respirou aliviado. Havia garantido, pelo menos, uma nova sequencia. Mas ele ainda não vira o naipe.  E se aquela dama fosse de ouros? E se aquela dama fosse a errada? Os outros queriam pressa e ele pedia calma. Fechou o jogo e tornou a abri-lo com mais confiança. Agora ele puxava a dama vermelha por cima das demais em busca do naipe e quando a ponta do coração apareceu, ele apenas fechou o jogo, tomou um gole da cerveja e apostou sobre a aposta.

- Seu meio cacife, mais meio cacife. Determinou.

A jogadora que havia dado as cartas não se intimidou e disse que tinha que pagar para ver. O seguinte pulou fora. O que não quis cartas tornou a olhar seu jogo e depois seus amigos e disse que não só pagaria como aumentaria a aposta em mais meio cacife. Ele contou suas fichas e apostou todas de uma só vez.

A dealer pediu um novo cacife e pagou a aposta. O que não quis cartas também pagou e ele teria que mostrar seu jogo.

Abriu um imenso sorriso e atirou uma a uma as suas cartas sobre as fichas no meio do feltro verde. Primeiro o dez, o valete, pulou a dama, jogou o rei e o ás e por fim, beijou a dama de copas e a jogou dizendo: - Pedi e a dama que eu mais desejei na minha vida veio. Fiz um Royal Street Flush! E gritou de felicidade!!! Junto com a vibração dos demais. Ver um Royal na mesa é tão bom que ninguém se importava em pagar o prêmio e todos comemoravam juntos.

Era seu dia de sorte.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Um sábado que ainda não houve

Estou esperando a inspiração chegar, mas hoje nem sei se ela aparece. É que está muito frio em São Paulo. Minha inspiração gosta muito mais do calor e de sol do que desse frio de 11 graus. Frio assim só é bom na serra, de frente para uma lareira, tomando um vinho e, principalmente, do lado de quem você ama.

...

A cidade acordou mal humorada. As nuvens estavam à beira de um ataque de nervos. Qualquer provocação e elas teriam uma crise de choro capaz de inundar as ruas e avenidas em tempo recorde. Era bom não provocar.

Era um sábado (que ainda não houve) em que ele acordou, abriu as cortinas, olhou para o céu sentindo um frio paulistano e pensou, enquanto acendia seu primeiro cigarro: - Por que é que ela está tão longe? Esse não é um dia para ficar sozinho. E se deixou pensar nas coisas que faria se ela estivesse por perto.

A Menina de Longe causava nele todo tipo de sensações e sentimentos. Um dia antes ele havia pensado em desistir, ainda que por um curtíssimo espaço de tempo. E, como se ela tivesse percebido, no momento seguinte, ele recebeu uma mensagem de texto dizendo: “Quero viver com você um grande amor. Acho que já estou!” e ele suspirou ainda mais apaixonado do que no dia em que viu seu sorriso.

- Eu não vou ficar em casa. Já sei o que fazer!

Disse em voz alta para que ele mesmo ouvisse. Apagou o primeiro e entrou no banho acendendo o segundo cigarro. Sim, ele fuma embaixo do chuveiro e isso lhe dá um imenso prazer. Deixou a água quente amolecer e esquentar seu sangue. Escolheu um sabonete Phebo porque o cheiro lhe enchia de memórias boas. Usou o shampoo que alcançou primeiro e depois um creme rinse, como sempre pensando na real utilidade daquilo. Não importava, ele apenas queria se sentir limpo e cheiroso.

Saiu do banho enrolado numa toalha imensa. Olhou-se no espelho embaçado, limpou os óculos e penteou-se com a pressa de quem está atrasado. Vestiu uma roupa quente, escovou os dentes e fez o check-list de todos os dias antes de tomar o rumo da rua: chave de casa, ok; chave do carro, ok; luzes, ok; carteira, ok... e saiu com a certeza de que ainda estava esquecendo alguma coisa.

Entrou no carro e buscou o primeiro posto de gasolina para abastecer, verificar pneus, água e óleo. Tudo certo. Escolheu músicas que lhe faziam se sentir bem, amentou o som e acelerou sem pressa buscando o túnel, a linha vermelha e a saída para a serra de Petrópolis. Ele havia decidido fazer sozinho o que queria fazer com a Menina de Longe. Preferiu não convidar ninguém. Ele sabia que se fosse com mais alguém, uma amiga, uma ex-namorada, acabaria em um jogo de sedução que talvez até fosse bom para um sábado de chuva, mas que seria muito ruim para o domingo seguinte, chuvoso ou não, ensolarado ou não.

Lembrou-se de umas pousadas bacanas que ele havia visto em uma revista de turismo e tocou para lá. Encontrou a placa de uma delas perdida entre as inúmeras placas de pousadas que escondiam um poste do caminho. Entrou e descobriu que não teria muitos problemas para conseguir hospedagem. A moça da recepção só estranhou o fato de ele estar sozinho, mas já se acostumara a receber hóspedes esquisitos.

- Publicitário? Achei que o senhor fosse escritor. Normalmente são os escritores que se hospedam sozinhos por aqui.

Ele respondeu, fez graça e tomou o rumo do chalé que escolhera para passar o dia. Dentro, uma imensa banheira de hidromassagem lhe convidava ao relaxamento total mas ele preferiu deixar sua mochila e sair para umas compras básicas. Foi a uma delicatesen que ele conhecia nas redondezas e comprou as coisas que lhe dariam  prazer. Duas garrafas de um bom vinho, um patê conhecido, alguns pães e mais algumas bobagens que funcionariam como o farnel do seu passeio.

Com as compras feitas, saiu para ver a paisagem. Manteve o carro numa velocidade baixa, algo como 60 ou 70 quilômetros por hora e foi beirando as estradas. A cada vale, uma parada. A cada horizonte, outra parada. Ele se sentia vivo e imenso quando olhava o mundo daquele jeito. Falava, sozinho, as coisas que falaria para a menina de longe se ela estivesse perto. Comentava os lugares, dizia que aquela música combinava com aquela paisagem e seguia seu caminho fingindo que ela estava lá. Fez algumas fotos no caminho para lembrar-se de seu passeio e mesmo para mostrar para ela. Apesar de sozinho, ele sentia sua presença e seguia.

A tarde já começava a cair quando ele resolveu voltar para a pousada e aproveitar um pouco do presente que tinha dado para ele mesmo.

No chalé, tirou as compras da sacola, pegou o vinho em suas mãos e riu. Não era a primeira vez que ele comprava vinho e esquecia-se do abridor. Com o tempo ele havia aprendido algumas técnicas que a vontade de beber ensina e estava pronto para enfiar a rolha para dentro da garrafa quando percebeu que o quarto tinha um abridor sobre o frigobar.

Serviu uma taça e levou a garrafa para a beira da banheira que já enchia quente. Acendeu a lareira e ligou o som. Dessa vez ele escolheu uma música clássica que sua mãe adorava. E o Bolero de Ravel ia tomando conta do ambiente e crescendo devagar enquanto ele, deitado, tomava um ou outro gole de vinho pensando. Sua mãe lhe tinha dito que aquela música expressava uma relação sexual, por isso crescia daquela forma, por isso era dançada da forma que era. E, com isso em mente, ele se deixou levar pelos acordes melodiosos e repetitivos e se viu excitado com a força da música. Fechou os olhos para ver os olhos da menina de longe e suspirou imaginando-a a seu lado. E, de repente, sentiu a menina de longe sentar em seu colo nu e aconchegar-se. Abraçou-a com volúpia, beijou-lhe a nuca, confessou poesias no seu ouvido e a chamou de grande amor. Os movimentos cresceram, os carinhos cresceram e a musica cresceu junto até seu momento mais forte e mais intenso. Juntos consumiram-se no amor raro e juntos adormeceram...

...

Era um sábado (que ainda não houve) em que ele acordou, abriu as cortinas, olhou para o céu sentindo um frio paulistano e pensou, enquanto acendia seu primeiro cigarro: - Por que é que ela está tão longe?

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Colonia de Ferias - Santo Inacio - 1973

Correas era assim... achei esse vídeo do Luiz Póvoa no Youtube... delicioso!

Correas


No seu colégio havia um lugar especial. Uma casa na serra de Petrópolis para onde todas as turmas de todas as séries iam por um ou dois dias por ano. Uma casa especial onde havia mágica no ar.

A cidade, ou distrito, era Correas, pertinho de Itaipava. O simples aviso de que já havia uma data marcada para a viagem causava um imenso alvoroço em sala. Meninos e meninas logo começavam a pensar nas inúmeras possibilidades que a viagem podia oferecer. Talvez fosse a hora certa de conversar com aquela menina que ele passou mais de três meses olhando de longe. Talvez fosse o melhor momento para transformar uma amizade de colégio em uma amizade que pudesse durar uma vida toda. Talvez fosse o tempo de meditar. Talvez fosse o caso apenas de brincar e se divertir.

O menino poeta sonhava com Correas todos os anos. As suas primeiras incursões marcaram sua vida para sempre. Logo na primeira viagem uma descoberta. A de uma lanchonete que ele frequenta até hoje: a Casa do Alemão. Lá, ele logo aprendeu que um croquete é muito mais do que um bolinho comprido que se faz com os restos da carne assada do dia anterior. Lá, ele percebeu que um mil folhas não precisa ter mil folhas para ser inesquecível. Aquela parada virou um ponto de referência para sempre.

O passeio era feito no ônibus do colégio. O mais paciente dos motoristas era escalado para levar a turma. Ele nem tentava pedir para que as crianças ficassem sentadas. Dirigia com tranquilidade e em silêncio. Até hoje o poeta acredita que ele apenas rezava o tempo todo para que nada acontecesse. E quanto mais perto chegavam da casa mais barulho fazíam. A última curva era para a direita. A esquina da rua da casa, que ficava numa ladeira, tinha um poste que dificultava bastante a manobra e os meninos e meninas em algazarra cantavam:

Motorista, motorista. Olha o poste. Olha o poste. Não é de borracha. Se bater amassa. Din. Den. Don. Din. Den. Don.


Quando o portão da casa se abria todos se amontoavam nas janelas para ver se estava tudo da mesma maneira que eles se lembravam. A primeira visão era o bonde. Do lado do campo de futebol havia um bonde antigo. Lugar que meninos e meninas escolhiam para as conversas mais profundas. Era para lá que os casais iam para conversar e quem sabe selar um namoro com um beijo roubado. Na madeira dos bancos nomes e mais nomes eram talhados com canivetes ou chaves. Declarações de amor eram sintetizadas em um coração com suas iniciais e ali dentro juravam o amor eterno.

Os amplos dormitórios possuíam baias separadas por uma divisória que não passava da altura do peito deles. Cada um corria para escolher sua cama e logo buscavam o melhor amigo para dividir com eles o mesmo espaço. Um pequeno armário era o bastante para que as roupas, casacos, toalhas e outros objetos fossem guardados de qualquer maneira, sem a usual supervisão materna. Cumprida esta etapa, todos saiam em direção ao campo de futebol ou para a quadra de basquete ou para a piscina. O importante era estar em grupo, respirar aquele ar de serra e curtir a delícia de serem tão jovens.

Das primeiras idas do menino poeta a melhor lembrança era a de Diana. Não, não era um dos seus primeiros amores. Diana era o nome de um Pastor Alemão que tomava conta da casa e se oferecia em carinhos para todas as crianças do colégio. Um poderia até ter medo de cachorro, mas era impossível ter medo da Diana. O menino poeta sempre reservava um tempo para lhe fazer carinhos e para brincar com aquele animal inesquecível. Era como se ele, e todos, tivessem nela o seu primeiro animal de estimação. Todos eram os donos da Diana e todos lamentam sua falta até hoje.

Um grupo de quarenta crianças seria praticamente incontrolável se não fosse pelos dirigentes. Dirigentes eram os alunos mais velhos que, graças a um bom relacionamento com os padres do colégio, eram escalados para ajudar a organizar o passeio. Usualmente três ou quatro meninos e três ou quatro meninas que rapidamente passavam a povoar o imaginário infantil. Afinal, uma menina com dois anos a mais que qualquer um daqueles meninos de colégio, que estavam justamente naquele momento descobrindo as possibilidades do amor, era quase um sonho. E as dirigentes eram sempre lindas, mesmo que não fossem.

Em uma das viagens, o menino poeta foi o escolhido de duas dirigentes. Ele se viu paparicado e seduzido pelas duas. Uma era mais atirada, de uma maneira que conseguia disfarçar melhor a sua essência. Falava tanta bobagem e era tão divertida que ninguém conseguia perceber direito o que se passava dentro dela. A outra era sedutora e distribuía generosas porções de charme para o menino poeta que se encantava em ser o motivo das suas atenções e com a possibilidade de conquistá-la. Foi uma das suas viagens inesquecíveis pelo tanto que ele descobriu ser possível imaginar e sentir.

A noite era o momento mais esperado. Alguns dos meninos arrumavam, no meio da tarde, uma desculpa qualquer para sair da casa. Diziam, por exemplo, que precisavam ir a farmácia e ganhavam um salvo-conduto que os autorizava a ir até o bar mais próximo comprar clandestinamente uma bebida qualquer. O ideal era uma garrafa de rum, que misturado com a Coca-Cola disponível na própria casa não era percebida por ninguém e podia ser consumida livremente. Quantas cubas-libres não foram sorvidas por aqueles pequenos pré-adolescentes? E quanta cumplicidade não nasceu daqueles momentos de transgressão?

Havia um momento em que era dado o toque de recolher. Todos tinham que ir para os dormitórios e se preparar para dormir. Uns de pijama, outros de calções, outros de moletom. Cada um se arrumava do seu jeito e encontrava a sua cama para deitar ou, pelo menos, para fingir que era o que fariam. Assim que as luzes eram apagadas o mesmo ritual se repetia. Um sempre repetia o bordão de um dos seriados da época: “Boa noite John Boy” e em coro o resto da turma respondia: “Boa noite babaca” e todos caiam na gargalhada. Os mais levados aproveitavam o sono dos mais cansados para espalhar pasta de dente nas mãos dos colegas só para rir na manhã seguinte com o estrago da pasta endurecida espalhada pelos rostos e cabelos. Era uma farra.

O café-da-manhã era servido no segundo andar da casa principal. Lá havia sempre pães frescos, manteiga, café, leite, achocolatado e frutas. Foi lá que o menino poeta aprendeu a delícia de um pão francês coberto com manteiga e regado com Nescau. Ele nunca nem havia pensado nessa possibilidade na mesa de café da sua casa, muito menos na frente do seu pai que faria uma típica cara de nojo e diria que aquilo era coisa de gente da baixa Bessarábia.

Algumas atividades eram obrigatórias. Havia uma missa e algumas dinâmicas de grupo com o propósito de aproximar as crianças e de reforçar a educação católica do colégio jesuíta. Mas nada que estragasse o clima festivo.

Em todas as viagens havia um churrasco. Todos ansiavam pelo momento em que o sino que ficava na varanda da casa tocaria avisando que o almoço estava pronto. Todos corriam para lavar as mãos e garantir um dos primeiros lugares na fila que se formava rápida e longa. Mas ninguém começava a comer antes que um coro de crianças entoasse em ritmo de rock:

Ao Senhor agradecemos. Aleluia. O alimento que teremos. Aleluia.

A música de louvor e agradecimento se transformava em outro momento especial. E todos cantavam alto, batendo palmas e dançando como se estivessem na matiné de uma boate. Os alunos do colégio adoravam transformar as músicas sacras em baladas.



O menino poeta aproveitou aquela casa como poucos. Fazia dela seu lugar mais especial do mundo. Seu amor pelo lugar era tanto que, mesmo mais velho. ele fez de tudo para ser escolhido como dirigente de turmas mais novas, mas essa é outra história, outra viagem.